Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

11.5.07

"Lady Vingança": Um novo capítulo na Trilogia da Vingança de Chan Wook-Park


Não é difícil compreender que existam pessoas que tenham se frustrado com o último episódio da "trilogia da vingança" de Park Chan-wook, mas só não compartilho do sentimento.

Talvez eu tenha dado sorte de poder assistir aos três filmes em seqüência (deixe-me tirar logo do caminho e dizer que se assistir "Sympathy for Mr. Vengeance" pela primeira vez é incrível, pela segunda vez é ainda melhor: puta que o pariu, que disciplina! Que trabalho de visualização e concretização de um roteiro! Duvido que um americano - do norte, centro ou sul - consigua ter tal visão e materializá-la na tela com tanta... organização, método ou sabe-se lá o que você quer chamá-la). Talvez seja o fato de que eu tenha dissociado os três filmes entre si, esquecendo do rótulo ¿trilogia¿, não os admitindo como um novelão em capítulos ou como variações sobre o tema que os une. Mas comparações entre "Mr. Vengeance", "Oldboy" e esse último são inevitáveis e acabarei caindo vítima das mesmas. Mil desculpas por isso.

Dos três, "Lady Vingança" é o que traz o dilema moral mais enfraquecido. É o que também traz o aspecto "Desejo de matar" desenrolado da maneira mais quadradona - o filme não estabelece uma situação complexa como "Mr. Vengeance" ou é abastecido por um mistério como "Oldboy". De cara, nós sabemos que a jovem Lee Geum-Ja é injustamente presa pelo seqüestro e assassinato acidental de uma criança. Sabemos também que o culpado é o seu marido Baek, que não só a incrimina como permanece em liberdade. Daí em diante, Park nos fará de cúmplices, pouco a pouco, a um elaborado esquema de vingança, numa narrativa que vai e volta no tempo, revelando os relacionamentos desenvolvidos por Lee no cárcere, os aspectos de seu plano (Lee Geum-Ja adota algumas liberdades poéticas que tornam sua vingança mais operática) e a personalidade não só de Lee como a de todos os envolvidos.

A chave para maior apreciação do filme - funcionou comigo, pelo menos ¿ é identificar nas citadas liberdades poéticas tomadas por Lee a filosofia que rege "Lady Vingança", estilisticamente, narrativamente, o que seja. Vingança é um prato que se come frio, daí a elaboração do plano de vingança ser tão complexa e extensa: para aplacar a fúria de ter sido injustamente presa (além do trauma eterno de estar envolvida no assassinato de um inocente), o culpado não pode ter apenas uma mortezinha; ele tem que Morrer! O filho da puta tem que ir para o além gritando de dor! Lee Geum-Ja só terá uma oportunidade de saborear sua vingança e só há um jeito de conseguir a catarse que tanto almeja. Não existem retakes. Ela não pode se dar ao luxo de ter uma vingança 80% satisfatória. É agora ou nunca mais.

E talvez seja aqui que muitas pessoas se frustrem tanto. De todos os personagens que encabeçaram a trilogia de Park, Lee Geum-Ja é a que tem os motivos mais claros e compreensíveis para se vingar. A personagem adquire empatia imediata da platéia. O espectador não debate nenhuma questão moral que vá se impor, na realidade o espectador anseia que Lee pegue o filho da puta (que é muito pior do que achamos) de jeito. Acontece que nem Park, nem a personagem vão mostrar as cartas tão cedo (inclusive adiando o máximo possível o desenvolvimento do plano, através dos vários flashbacks e da inclusão de numerosos personagens secundários, mas fundamentais). "Lady Vingança" constrói o seu momentum, limando a violência de cenas mais chocantes (aqui, a violência é mais sugerida do que mostrada na tela), o que pode decepcionar - e muito - os que esperam mais um "Oldboy". Sorry, nada de polvos ou marteladas nesse filme.

Desde os créditos iniciais, portanto, "Lady Vingança" se firma como o filme mais visualmente rebuscado do diretor. "Lady Vingança" é um deleite só de se observar. A fotografia é deslumbrante (ironizando "Kill Bill", o DVD lançado na Coréia tem uma versão em que o filme gradualmente se torna preto-e-branco) e a escolha dos enquadramentos, dos cortes, da direção de arte, tudo é um negócio de outro mundo. Melhor ainda: tudo forma um conjunto homogêneo que faz o filme fluir. O espectador mais interessado nesses aspectos vai sair da sessão rezando para uma reprise; há muito o que ver, o que prestar atenção, é divertido destrinchar o filme em suas características mais técnicas para descobrir que dificilmente existe um componente de cena gratuito, uma montagem sem propósito. Um dos aspectos que acaba se destacando imediatamente é a trilha sonora, de todos os filmes de Park a melhor, com o tema mais memorável e que melhor se encaixa na história.

Talvez o público também já tenha agüentado sua cota de justiceiras, após "Kill Bill", Lorena Bobbitt e tantas outras. Muito da expectativa em torno de um filme vem do desejo de se assistir algo revolucionário, inovador, algo que nem "Kill Bill", nem esse são realmente. É outro erro achar que "Kill Bill" e "Lady Vingança" estão em nível de competição. As semelhanças não param apenas na escolha de mulheres para protagonistas - vão até o papel do marido enquanto vilão, a questão maternal (em ambos, as filhas representam um papel fundamental). Mas se a americana era um bicho, determinada, agindo por instinto, a coreana é uma enxadrista cruel, sem hesitar em sacrificar peças chaves ou, inclusive, a sua própria vida. Enquanto "Kill Bill" trabalha com estéticas de filmes japoneses de samurais, western-spaghetti ítalo-americanos, kung-fu chineses, blaxploitation, thrillers p&b cinqüentistas, anime e o escambau, "Lady Vingança" trabalha sim com o thriller noventista norte-americano, com os filmes de prisão feminina dos anos 60-70, com a comédia pastelão (num final de beleza incomparável), mas está mais preocupado em relê-los poeticamente. "Lady Vingança" tem um quê de paródia, inclusive dos filmes que o antecedem na trilogia, mas nunca os diminuindo ou fazendo troça.

Deliciosamente perverso, o filme traz consigo uma insuspeita carga de humor, ainda que negro. Cenas como a visita de Lee Geum-Ja à casa dos pais adotivos de sua filha ou uma cena de curra são tão hilárias quanto surpreendentes. A verve cômica do diretor está a mil, mas o espectador mais purista vai deixar as gags visuais passarem batido. O que nos leva à cena antológica do ano, que provocou as reações mais polarizadas da platéia com quem assisti ao filme. Não posso revelar muito, mas imagine uma reunião de pais e mestres que dá incrivelmente errado. É o clímax do filme, que vem sendo preparado desde o logo da CJ Entertainment, mas quando acontece quase duas horas depois... é inacreditável: ao mesmo tempo em que eu gargalhava de maneira quase incontrolável, não conseguia sequer piscar, hipnotizado pelos acontecimentos que se desenrolavam na tela. Aqui Park provoca nossa moral, ironiza o processo democrático, testa nossos nervos, tudo ao mesmo tempo, é uma seqüência tão excitante quanto desgastante emocionalmente. Uma cena clássica destinada a morar na memória do espectador. Gostaria de poder divagar mais sobre ela, mas tenho que poupar quem está por assisti-la: sua descoberta provoca aquele impacto que amantes do cinema vivem procurando repetir.

Porém, "Lady Vingança" ainda se estende por algum tempo, o que dá tempo para o espectador abaixar os níveis de adrenalina. "Lady Vingança", o filme, já teria terminado por aqui, mas "Lady Vingança", a alegoria sobre a violência que tem a responsabilidade de fechar toda uma série de filmes, precisa desse epílogo, em que a personagem se dirige ao espectador e pede que ele permaneça limpo, puro. Quando Park Chan-wook desvirtua o símbolo máximo da comédia pastelão - a torta na cara - e o transforma em imagem maior do indivíduo eternamente buscando redenção, a limpeza do seu karma, o indivíduo eternamente "sujo", o diretor nos questiona: o que é justiça, se para consegui-la acabamos nos condenando?

...E eu nem falei do elenco: Lee Yeong-ae está brilhante no papel principal, Min-sik Choi já se tornou o ator que o bom espectador tem a obrigação de assistir tudo o que fizer, todas as coadjuvantes, inclusive a caminhoneira escrota da prisão, são excelentes. Estou tendo que me forçar a parar de escrever sobre o filme. Park Chan-wook se firma como um dos grandes diretores da atualidade, graças a Deus. Não é difícil compreender por que muitos se frustraram com "Lady Vingança": é pura e simples estupidez da parte deles.

Por Bernardo Krivochein - Zeta Filmes


27.4.07

Danny Boyle faz ficção científica com toque existencial


"Sunshine - Alerta Solar", estrelado pelo irlandês Cillian Murphy, é uma ficção científica com toques filosóficos e metafísicos, que tenta (e muito) remeter ao clássico "2001 -- Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick.

Dirigido por Danny Boyle ("Trainspotting", "Extermínio"), "Sunshine" recorre a um mito grego e se revela uma fábula moral. O nome da espaçonave em que viajam os personagens é Ícaro 2 -- em uma referência à lenda grega do rapaz que se encantou com o sol e voou para muito próximo dele, teve as asas de cera derretidas e acabou morrendo.

Desde a primeira cena, "Sunshine" destaca que o sol não é apenas um astro, é também um elemento que seduz seus personagens. Um homem dentro da nave espacial olha encantado a estrela, enquanto um narrador diz que o sol está morrendo e que ele e sua equipe foram enviados para uma tentativa de reavivá-lo, que é vital para a sobrevivência da Terra.

Dentro da nave, há uma equipe formada por oito pessoas das mais diferentes origens e experiências, desde um psicólogo maori (Cliff Curtis) até um capitão japonês (Hiroyuki Sanada), passando por um físico irlandês (Cillian Murphy), uma piloto norte-americana (Rose Byrne) e uma botânica chinesa (Michelle Yeoh, de "Memórias de uma Gueixa").

O confinamento e os pequenos sacrifícios em favor de um bem maior fazem lembrar o "Big Brother" (o programa da TV, não o de George Orwell). Além de reativar o sol, a tripulação deve descobrir o que houve com Ícaro 1, a nave que tinha a mesma missão deles, mas perdeu-se ao longo da jornada.

Boyle e seu roteirista, o escritor inglês Alex Garland (autor de "A Praia"), deixam claro que estão em busca de algo bem maior do que explorar as diversões comuns ao gênero de ficção científica.

Aqui, eles buscam combinar explosões e correrias com questionamentos filosóficos e metafísicos -- o que dá mais densidade ao filme. A bordo da nave também está o computador Ícaro, que com sua voz doce e feminina mais parece uma descendente de Hal, de "2001".

Se o roteiro começa a ficar confuso em sua última parte -- com a introdução de um novo personagem e a soma de um novo gênero, o terror -- os efeitos visuais nunca perdem a expressividade. A trama, porém, vai deixando de lado o equilíbrio de sua primeira hora para se tornar apenas um filme de perseguição e sustos.

Por Alysson Oliveira, do Cineweb

  • PROMOÇÃO SUNSHINE/SAMSUNG: Faça parte da missão Icarus e concorra a vários premios!!!


  • 18.3.07

    Cage encarna herói amaldiçoado


    O mesmo diretor de Daredevil - o Homem sem medo e que também escreveu Elektra , Dois Velhos Rabugentos, Jack Frost retorna agora com nova adaptação de uma historia em quadrinhos, mais cult que popular. Que foi sucesso nos EUA ( esta perto dos 100 milhões) apesar de criticas negativas. Vai ver eu estava num bom dia porque o filme não me incomodou. Assisti com facilidade, gostando de algumas sacadas de elenco (como colocar Peter Fonda como o diabo) e sem deixar Nicolas Cage incomodar (dizem que ele é velho demais para o personagem mas como é louco por quadrinhos insistiu em fazer o filme. Não atrapalha porque no começo é substituído por um jovenzinho e depois em todas as cenas de ação seu rosto é substituído por uma caveira flamejante!).

    A historia até que é bastante complicada e pretende ser uma paráfrase aquela lenda em forma de canção que é Ghost Rider of the Sky , sobre os cavaleiros fantasmas que andariam pelo Velho Oeste. No caso, é sobre um certo Johnny Blaze que muito jovem vende a alma ao diabo para salvar o pai doente. Mas como não se brinca com o diabo , este provoca a morte do pai e o faz mudar de cidade, esquecer a mulher que amava e mudar de vida, se apresentando em truques com motos cada vez mais incríveis (já que ele é imortal).

    Anos depois a mocinha virou Eva Mendes (uma atriz sempre fraca, nunca à vontade) e trabalha como repórter de teve. Johnny virou um sujeito estranho e solitário, mas que é forçado a atender o pedido do Diabo e enfrentar um filho rebelde dele, Coração Negro (o retorno de Wes de Beleza americana). É quando finalmente entra em ação o Motoqueiro Fantasma, com um moto em chamas (além da cabeça que eu já mencionei que na verdade é o ponto alto do filme).

    Dali em diante a ação é continua, bem humorada, altamente digital e sempre competente. Não sou especialista no assunto nem em heróis da Marvel . Mas sai do cinema satisfeito.

    Por Rubens Ewald Filho


    29.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Little Red Flowers" tem vigor interpretativo, carisma infantil, e estética que por vezes beiram o primor


    Filme interessante esse de Zhang Yuan. Atemporal pelo que nos é mostrado, coloca a grande e antiqüíssima China como um país que, além da distância, se mantém estranha para nós quando a percebemos numa espécie de limbo temporal; um fato potencializado pelo filme que desnuda o modo adotado para a educação infantil no país. Não que seja uma maneira errada a utilizada com as pequeninas crianças na instituição em que se desenrola a trama, mas os modos de ensino e educação causam bastante estranhamento em nós, "modernos ocidentais", com sua opção por antigas crenças (verdades?) quanto ao que é bom para a saúde e maneiras de tratamento dedicadas aos petits. Quando imaginamos a enormidade do país e a enormidade populacional, muito do que o filme mostra passa a soar como melhor maneira a ser exercida, e o tal estranhamento pode passar a receber olhares de mais admiração.

    Mas o que importa mesmo no trabalho é que, na aparência, numa primeira e mais preguiçosa olhada, o que pode restar é uma sensação de obtenção simplista de resultado ou "bizarrice" - aí, pelo bem ou pelo mal. Mas o filme vai muito mais longe. Na realidade é recheado de sub-textos e oferece uma infinidade de sub-leituras a quem se dedicar e interessar. O diretor transita pelo mundo da inocência total, modificando-a - com os mesmos personagens desenvolvendo várias facetas - ao modo do não tão puro e por vezes maldoso comportamento que manifestam as crianças. Coloca, num contraponto (ou convergência), a educação e a diversão, observadas numa mesma tomada, abaixo de exercícios de rigidez e obediência militar, típica de um país que se imagina à parte no mundo. Escapa, com a câmera transitando de maneira bastante elaborada, para situações de teor "fabulesco", com qualidade superior de cinema bem filmado que é ressaltado pela qualidade da execução musical. "Oferece" às crianças, as possibilidades que um país governado por ditadura pode oferecer a quem não se comportar como exigido. Choca com a reação do garoto que diz gostar do clima do hospital vizinho à instituição, preferindo-o ao rigor imposto pela professorinha.

    Sinceramente, são inúmeras possibilidades de entendimento, e o mais bacana é que Yuan não "maniqueisa" seus personagens, separando-os por idade ou função entre bons e maus; todos tem comportamentos que se alternam, por vezes são "bons", por outras "maus", quando observados por uns - em momentos bastante específicos - ou executando atitudes "necessárias". E tem vigor interpretativo, carisma infantil, e estética que por vezes beira o primor - sem escorregar quando possíveis armadilhas se delineiam.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Little Red Flowers " aqui!
    Por Cid Nayer - Cinequanon.art.br


  • 27.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Shortbus" tempera sexo com humor


    Quem ficar incomodado com a seqüência inicial de "Shortbus", que passa hoje na Mostra, por conta da nudez frontal e do inocente xixi na banheira do personagem James (Paul Dawson), não pode nem imaginar a maratona de sexo explícito que o diretor e roteirista John Cameron Mitchell reserva para boa parte dos cem minutos seguintes. Um colorido mosaico de relações homo e heterossexuais, orgias etc. Mas, calma lá, não se trata de um filme pornográfico. As cenas de sexo surgem tão bem amarradas à narrativa quanto as canções e dança de um musical como "Oklahoma!", como descreveu a crítica do jornal "New York Times".

    "O sexo aparece integrado às vidas dos personagens", disse Mitchell à Folha, durante a apresentação de seu filme no Festival de Toronto.

    "Queria usá-lo como a música em "Hedwig - Rock, Amor e Traição" [seu primeiro filme], uma metáfora para revelar os personagens sem usar palavras. Por isso não se pode comparar "Shortbus" a um filme pornográfico. Poucas pessoas se excitam sexualmente ao vê-lo, e, quando isso acontece, é algo periférico. A idéia não é chocar ou excitar. Quando ele termina, a última coisa em que se pensa é no sexo. Como no fim de uma relação boa. Diferente do que se sente após ficar apenas uma noite com alguém."

    O "projeto para um filme de sexo" de Mitchell começou ainda nos anos 90, quando diretores como a francesa Catherine Breillat, de "Romance", romperam a censura sutil do fantasma da Aids e voltaram a explorar o erotismo em seus filmes. Mas Mitchell queria não somente ousar na representação, para fazer contraponto ao sexo sem suor de Hollywood. Para ele, sobrava negatividade no sexo cinematográfico, associado à frustração ou violência, e faltava humor. E um viés político.

    Numa seqüência de "Shortbus", por exemplo, três rapazes entoam o hino nacional americano durante um ménage à trois. "Ser americano é um monte de coisas, ser patriótico também. Sou patriótico, não da mesma forma que Bush é, mas sou", disse Mitchell.

    "Shortbus" -nome daqueles ônibus escolares amarelos e também de uma festa mensal que Mitchell comandava em Nova York- acompanha os conflitos amoroso-sexuais de sete personagens: uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo (Sook-Yin Lee, apresentadora de TV canadense) e seu marido (Raphael Barker), uma dominatrix solitária (Lindsay Beamish), um voyeur (Peter Stickles), um casal gay (Dawson e PJ DeBoy, namorados na vida real) que não consegue transar, e Ceth (Jay Brannan), jovem que parece ser o vértice ideal para um eventual triângulo deste casal.

    Para arregimentar seu corajoso elenco -"cult" na atual temporada nova-iorquina de estréias, com o casal DeBoy e Dawson sendo fotografado por Bruce Weber para a "Interview"- Mitchell evitou agentes e estrelas, "porque eles não fazem sexo à frente das câmeras nem poderiam ficar disponíveis tanto tempo". O diretor colocou anúncios numa página na internet pedindo testes em vídeo etc., teve meio milhão de acessos e recebeu 500 fitas.

    "Chegamos inicialmente a um grupo de 40 pessoas interessantes, inteligentes, distintas e sexy. Pensamos na compatibilidade sexual e fechamos em nove pessoas antes mesmo de termos uma trama. Eu sabia apenas que o filme se passaria em Nova York, que envolveria sexo com casais distintos. Fizemos oficinas um pouco como Mike Leigh, e a partir das improvisações eu fiz o roteiro. Ensaiamos, e eu reescrevi o roteiro por mais de dois anos antes de filmar", contou Mitchell.

    Os atores escolheram seus nomes e ajudaram a determinar seus conflitos que, se já não são assombrados pela Aids, não deixam de conviver com outro fantasma: o 11 de Setembro. O atentado está presente no longa, seja insinuado na "forma" dos piques de luz e eventual blecaute que acontecem no filme. Ou na tristeza, vazio e solidão que levam seus personagens a freqüentar o Shortbus, misto de clube de sexo e cabaré, que "lembra os anos 60, só que com menos esperança", como observa Justin Bond, famosa drag queen nova-iorquina que faz ponta no filme.

    "Lembro que os ataques aconteceram um mês antes da estréia comercial de "Hedwig". É uma sombra que continua sobre a cidade, que uniu a cidade.

    O sentimento que aparece no filme é o mesmo que a cidade experimentou na época. Um certo otimismo que veio dos próprios atores", disse Mitchell, que, em entrevista ao "New York Times", chamou seu filme de "pequeno ato de resistência contra Bush e a América em que vivemos".

    "A cidade está mudando, mas ainda é Nova York. É ainda a cidade de artistas, de todas as pessoas que criaram uma certa sinergia criativa representada no filme pelo clube, que é sexual, mas também artístico."

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Shortbus" aqui!
    Por Eduardo Simões - Folha de São Paulo


  • 25.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Você Disse que Me Amava" trata com simpatia dilemas da terceira idade


    Já houve um tempo em que o diretor e roteirista Rudolf Thome representava a corrente mais inquieta do cinema alemão, com filmes irreverentes como "O Filósofo" (1989), que participou da 13ª Mostra. Hoje, aos 66 anos, talvez menos preocupado em contestar e chocar, ele consegue extrair matéria-prima intimista de estudos cuidadosos de personagens, como demonstra "Você Disse que Me Amava".

    O filme é construído, de maneira quase minimalista, em torno da ex-campeã de natação Johanna, recém-saída de um casamento que lhe deixou ressentimentos. É uma mulher aposentada, na faixa dos 60, o que acrescenta alguns pontos ao quadro: medo da solidão, obsessão em relação à morte e dificuldade em ocupar o tempo com algo a que consiga atribuir significado especial, uma vez que a filha já é adulta.

    As reflexões de Johanna sobre esse dilemas cotidianos fazem a história caminhar lentamente, respeitando o tempo que ela precisa para contemplar o meio que a cerca e pensar em modos de transformá-lo. Um aspirante a escritor acelerará o processo.

    Deus é invocado com alguma freqüência nas divagações de Johanna, bem como lembranças da mãe, já morta. Experiência religiosa e herança familiar são eixos aos quais ela se remete para compreender por que parece vítima de um ciclo vicioso que não começa (muito menos termina) com ela.

    Nessa jornada de autoconhecimento sobre uma mulher que encontra tempo e forças para reconstruir a vida, fantasmas do passado são revividos para cobrir de sombras o presente, mas não impedem, enfrentados a duras penas, que se vislumbre futuro no qual ainda haja espaço para relacionamentos, projetos e viagens, nos sentidos literal e figurado. Espaço, em resumo, para abrir-se novamente ao mundo. "Você Disse" defende a idéia simpática de que não há idade-limite para sonhar.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Você Disse que Me Amava" aqui!
    Por Sérgio Rizzo - Folha de São Paulo


  • 24.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "Sonhos com Shangai" exibe China contraditória


    Não foi uma vitória fácil.

    O Prêmio do Júri de Cannes-2005 dado a "Sonhos com Shangai", de certa forma surpreendente, deixou de lado bons títulos de cineastas importantes, como David Cronenberg ("Marcas da Violência"), Wim Wenders ("Estrela Solitária") e Gus Van Sant ("Last Days"), entre outros.

    O júri presidido por Emir Kusturica certamente foi seduzido pela sobriedade do longa do chinês Wang Xiaoshuai (de "Bicicletas de Pequim", Grande Prêmio do Júri em Berlim-2001), que, ao tratar de uma das temáticas mais básicas de todo o cinema oriental -o conflito entre o antigo e o moderno, personificado no turbulento relacionamento entre a jovem Qing Hong (Yuanyuan Gao) e seu pai (Anlian Yao)-, paulatinamente exibe todo o desconforto e as contradições que a gigante China não vende em reuniões nas quais se apresenta como "global player".

    A precisão de Xiaoshuai pode ser confundida com frieza, mas o tom de seu filme dialoga com obras mais intimistas de seus pares, como "Dezessete Anos", de Zhang Yuan, e "Nenhum a Menos", de Zhang Yimou (antes dele se render às facilidades do cinema de gênero).

    "Sonhos com Shangai" é ambientado na distante província de Ghizou, região para onde são enviadas diversas famílias de grandes centros. O governo central pretendia desenvolver os grotões de um país de dimensões continentais. A capital é tema de vários diálogos, mas concretamente não passa de um sonho não-realizado.

    Qing está completamente ambientada à cidade e vive as turbulências típicas da idade, que ganham tintas mais dramáticas devido à rigidez paterna. Seu pai acredita que é um exilado, não se furta a chamar o local de "fim de mundo" e condena sua mulher pela opção da mudança -aparentemente, foi ela quem preferiu mudar-se para o interior.

    De um modo mais amplo, os próprios dilemas da modernidade da China se refletem nos personagens. O núcleo jovem do filme copia modismos ocidentais, tenta se rebelar contra a severidade dos costumes locais, diverte-se em festas que têm como trilha sonora um rock algo brega dos anos 80.

    E é uma dessas festas que rende uma das melhores passagens de "Sonhos", quando o galã local exibe todos os seus dotes de dançarino e seduz Xiao Zhen (Xueyang Wang), a melhor amiga de Qing. O encontro festivo é abortado em razão de uma briga promovida por turmas de fábricas rivais.

    Esse mimetismo alinhavado aos solavancos também acontece entre os egressos de Xangai e os "locais". O pai de Qing condena com vigor o namoro de sua filha com um jovem operário. Segue-a e manda que jogue fora presentes e cartas dados por ele. Os conflitos se acirram no terço final do filme, quando ocorre um ato violento e inesperado. As tensões do pai de Qing em seu ambiente de trabalho também chegam a um ponto insustentável, e ele toma uma decisão radical.

    As manhãs cinzentas e chuvosas refletem a atmosfera nebulosa dos sentimentos dos personagens. A tristeza que perpassa grande parte dos fotogramas do longa dialoga muito com os paradoxos da China, enigmática aos olhos ocidentais e problemática para muitos de seus habitantes.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Sonhos com Shangai" aqui!
    Por Mário Gioia - Folha de São Paulo


  • 23.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "O Cheiro do Ralo" é uma deliciosa ironia da sociedade


    A parceria entre o consagrado quadrinhista brasileiro Lourenço Mutarelli e o publicitário e cineasta Heitor Dhalia começou com o elogiado "Nina". No filme de 2004, o escritor e desenhista cuidou das viscerais passagens animadas. Agora, no longa "O cheiro do Ralo", atinge maior expressão, já que adapta para as telonas o primeiro romance de Mutarelli, que - veja só! - aproveita para debutar também como ator.

    O roteiro adaptado é do próprio Dhalia e Marçal Aquino (Crime delicado, O invasor), sujeito que dispensa apresentações. A dupla já trabalhou junta em Nina e retoma aqui a ótima colaboração, ao transportar a obra sem perder um grama sequer de sua deliciosa ironia.

    Na trama, Lourenço (Selton Mello), um comprador de objetos usados, vive enfurnado em um galpão, protegido dos fracassados do mundo por uma secretária (Martha Meola) e um segurança (o próprio Mutarelli, divertidíssimo). Os dois cuidam de filtrar os desesperados que podem entrar na sala do chefe e oferecer seus tesouros e tralhas a ele.

    Lourenço começa o filme quase normal. É noivo, come estrogonofe com batatinha ao lado da futura esposa, dirige uma Veraneio e leva a vida de forma comum. Porém, conforme aumenta o cheiro desagradável que vem do ralo do banheiro de seu caótico escritório, cresce também a sensação de poder dele, de domínio sobre aqueles desgraçados que ele "coisifica", catalogando-os em função de seus objetos. Começam também as obsessões... um olho de vidro, uma bunda continental... na mente de Lourenço, tudo está conectado.

    Dhalia leva com competência a obra marginal de Mutarelli às telas, enriquecendo a narrativa com pequenas pistas visuais sobre a questionável personalidade do personagem. Direção de arte, fotografia, figurino, tudo espelha o universo do comprador de velharias, que dá vida ao ambiente disparando engraçadíssimas frases de efeito com a mesma facilidade que respira e se afunda no ar fedido do banheirinho.

    Mas nem todo o talento cinematográfico do planeta teria êxito em levar à tela essa história, que depende quase que exclusivamente do personagem principal, se não houvesse um protagonista perfeito liderando o elenco. Selton Mello abraça a cria de Mutarelli e a arranca das páginas do livro com cínica perfeição.

    A voz rouca do ator e sua atitude blasé dão ao anti-herói trash sua carne e osso, mas é a genial desconfiança de Mutarelli sobre a sociedade responsável pela sua alma deliciosamente perturbada.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "O Cheiro do Ralo" aqui!
    Por Érico Borgo - Omelete


  • 22.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    "O Guardião" testa bordas do cinema


    Com filme de estréia sobre guarda-costas, o argentino Rodrigo Moreno foi premiado em Berlim e ganhou atenção mundial


    O que acontece na intimidade de alguém que está sempre confinado aos lugares em que (aparentemente) nada de importante acontece?

    O cineasta argentino Rodrigo Moreno ensaia essa pergunta e uma resposta com seu longa-metragem de estréia, "O Guardião". Guarda-costas de um ministro de Estado, Ruben (Julio Chávez) fica na ante-sala das reuniões, do lado de fora das festas, no estacionamento dos prédios, na calçada dos apartamentos ou nos corredores das casas e hotéis freqüentados pelo homem que deve proteger.

    "Achei que abordar um personagem lateral, um homem sujeito à existência de outro seria interessante, até para descobrir como se filma essa história", afirma Moreno, 33.
    A descoberta rendeu ao diretor o prêmio Alfred Bauer no Festival de Berlim, habitualmente conferido a obras que conduzem "a arte do cinema para novas direções".

    No filme e no discurso, o diretor acentua que a dependência entre os dois personagens e a "panela de pressão" emocional que a natureza desse vínculo impõe ao guarda-costas era o único tema que lhe interessava. A circunstância política argentina, portanto, fica de fora.

    "Procurei afastar todo laço que a história pudesse ter com a realidade. Não me interessa fazer filmes sobre o que se lê nos jornais. Quero explorar uma problemática mais profunda", afirma.

    O fictício ministro Artemio (Osmar Nuñez) ocupa uma pasta também inexistente -a do "planeamiento" (planejamento), e não a da "planificación", oficial e poderosa na estrutura de governo argentina.

    "A idéia é que ele fosse um ministro de segunda linha, um burocrata, alguém sem paixão, anêmico." Autor também do roteiro, Moreno diz que procurou caracterizar o personagem do ministro "na contramão da imagem óbvia", que seria a de "alguém deliberadamente corrupto, deliberadamente ignorante e deliberadamente prepotente". Mas afirma que sua opinião sobre política fica clara no "discurso vazio" que é a constante do ministro.

    Para o protagonista, o diretor diz que precisava ter "um grande ator disposto a não atuar, a expressar-se com o mínimo". Escolheu Julio Chávez, veterano no teatro argentino e nome em alta no cinema desde que foi dirigido por Adrián Caetano em "Un Oso Rojo" (um urso vermelho, 2002).

    O "mínimo" de atuação de Chávez significa também que apenas um mínimo de informação sobre o personagem é oferecido ao espectador, ao menos diretamente.
    É preciso seguir os passos de Ruben no filme para perceber sua constante solidão, seu descenso profissional, o desastre de sua vida familiar e também sua obsessão pelas normas e pelo bom desempenho.

    Tudo isso para conduzir ao desfecho que Moreno define como sendo "a contradição" que foi, na verdade, seu ponto de partida para fazer o filme.
    Depois da boa acolhida na estréia, o diretor escreve um novo longa, "em torno de um personagem adolescente" e se prepara para dar um curso de direção em São Paulo, no ano que vem.

    Narrativa tensa mostra o vazio da política


    Ruben (Julio Chávez), guarda-costas de um ministro, é praticamente um homem invisível. Seu papel, em grande medida, consiste em passar despercebido enquanto abre portas, espera em ante-salas e corredores, vigia os ambientes por onde passa ou passará seu chefe.

    A partir do ponto de vista desse ser descolorido, vemos não tanto a política argentina, mas os bastidores, as zonas mortas, os "entreatos" da atividade política, que se apresenta então como ritual desprovido de conteúdo. É por frestas de portas, por fragmentos de conversas telefônicas, que entrevemos um pouco desse impenetrável universo.

    Mas Ruben é um ser de carne e osso, com sua irmã problemática, sua sobrinha, seus rancores calados. Esse mundo interior em quieta ebulição vai sendo construído pelo espectador à medida que acompanha as tarefas do guardião. A tensão, que justificará o desenlace surpreendente, não se nutre dos golpes baixos do cinema convencional (música enfática, montagem paralela), mas do laconismo do personagem, da parcimônia com que nos é mostrada sua vida.

    Lição de rigor e precisão, a narrativa desse primeiro longa "solo" do argentino Rodrigo Moreno foi comparada, com algum exagero, ao cinema ascético do francês Robert Bresson. Não chega a tanto, mas justifica a esperança numa carreira das mais brilhantes.

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "O Guardião" aqui!
    Por Silvana Arantes & José Geraldo Couto - Folha de São Paulo


  • 21.10.06

    SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

    O mar hoje está para "Sonhos de Peixe"


    A paixão que a música brasileira é capaz de causar em ouvidos estrangeiros já rendeu histórias antológicas. Mas poucas se comparam à de Kirill Mikhanovsky. A paixão deste russo pela música de Caetano Veloso acabou em filme. Não, não se trata de um filme sobre o cantor baiano nem sobre a música do Brasil. O fascínio rendeu a Kirill uma viagem ao Brasil, que rendeu uma ida à Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, que rendeu Sonhos de Peixe.

    A paixão, aliás, começou também no cinema. 'Eu assistia a A Flor do Meu Segredo, do Almodóvar e, quando começou a tocar Tonada de la Luna Llena fiquei encantado. Fui procurar de quem era aquela voz incrível. Descobri que era o Caetano. Comecei a comprar e ler tudo sobre música brasileira', conta o diretor, por telefone, direto da cabine de seu avião em Moscou, que se preparava para decolar rumo a São Paulo, onde Sonhos de Peixe faz sua estréia no Brasil, na 30ª Mostra de Cinema de SP, às 21 horas, no Cinesesc.

    Mikhanovsky está ansioso. 'Já exibimos em vários festivais. Até em Cannes (onde recebeu o Prêmio do Olhar Jovem na Semana da Crítica), mas é no Brasil que a platéia será mais rigorosa. É claro que vão pensar: quem é esse russo que se mete a contar uma história tão brasileira?'

    A história, aliás, é a de Jusce (José Maria Alves), um jovem pescador de lagostas . Jusce ama Ana (Rúbia Rafaelle), que 'só quer, só quer' uma vida que só existe em O Beijo do Pecado, novela que ela não perde por nada. O único que consegue ter tanta atenção de Ana quanto a TV é Rogério (Phellipe Haagensen), amigo de Jusce que, tempos depois de sair para a 'cidade grande', volta para o vilarejo como bugueiro. Ana se divide entre os dois e exige cada vez mais de Jusce.

    Sem apelar para a estética de cartão-postal, Mikhanovsky filma a vida que passa pela janela. Como matrioskas (as bonequinhas russas), sua história de pescador esconde em si outras tramas. Em Sonhos de Peixe, os devaneios são de gente comum, que vive uma vida comum. Ou quase. Por isso, há quem diga que é longo demais. De fato é. Há quem diga que 'falta ator'. E falta. Mas na realidade o filme imprime à platéia o mesmo ritmo cotidiano das vidas daquele vilarejo. E todos em cena (com exceção de Haagensen e Chico Diaz, que vive também um pescador) são moradores de Baía Formosa. Foram literalmente recrutados nas ruas da cidade pela produtora brasileira (assim como toda equipe, com exceção do assistente de direção e do diretor de fotografia) Fernanda de Capua. Mikhanovsky tem o olhar raro de quem consegue pescar a verdadeira brasilidade não em 'macumba para inglês ver', mas no detalhe de uma família reunida em frente da TV, de uma pelada na praia.

    E quem é esse russo? Antes de se tornar cineasta, Mikhanovsky, que se divide entre a Rússia e os EUA, onde mora parte de sua família, estudou antropologia e lingüística. Foi na América, mais precisamente na New York University que conheceu Fernanda de Capua e Matias Mariani, brasileiros que estudavam cinema na universidade. 'Eu trabalhava na NYU e o Matias estava na graduação. E ficamos amigos do Kirill. Ele, que fazia pós-graduação, me contou que havia ido ao Brasil, e era apaixonado por música brasileira e que queria fazer a tese dele, que, no caso, era um filme, no Brasil. Achei ótimo, mas logo pensei que não passava de mera idéia', conta Fernanda.

    A idéia passou a ser projeto de um curta, que passou a ser projeto de um longa-metragem. E nós acabamos entrando como produtores', conta ela. Apesar de se passar no Brasil, ter atores brasileiros, ser falado em português, Sonhos de Peixe não contou com um centavo de verba nacional. Os US$ 325mil necessários para 'botar o filme na lata' foram bancados pela produtora americana Unison Films.

    'As leis de incentivo só funcionam se o diretor for brasileiro. Chegamos a ter R$ 100 mil de incentivo do governo do Estado do Rio Grande do Norte, mas a burocracia e as comissões eram tão absurdas que resolvemos não usar a verba', conta Fernanda, que já sonha com outra produção em parceria com Mikhanovsky. Ele assina embaixo. 'Tenho algumas idéias. Quero muito voltar a filmar no Brasil.'

  • MONDO SAMPA: Confira a ficha técnica e os locais de exibição de "Sonhos de Peixe" aqui!
    Por Flávia Guerra - Estado de São Paulo


  • 3.9.06

    Novo filme testa carreira de Shyamalan


    Diretor de sucessos como "Sexto Sentido" apresenta "A Dama na Água", longa que causou seu rompimento com a Disney


    Num jantar, no ano passado, no restaurante que M. Night Shyamalan, homem de hábitos rígidos, sempre freqüenta, na Filadélfia, Estado da Pensilvânia, onde mora com a mulher e duas filhas e sempre filma, o diretor indo-americano de 36 anos não podia acreditar no que ouvia. E o que ouvia eram críticas, pela primeira vez em sua carreira, duras críticas.

    Seus autores eram os executivos do estúdio com quem trabalhava desde seu primeiro filme importante, "O Sexto Sentido" (1999), que colocou a frase "Eu vejo pessoas mortas" ("I see dead people") no dicionário da cultura pop e levou US$ 672 milhões à Disney, só em bilheteria mundial, sem contar vídeo, DVDs e exibições de TV.

    Chamado numa reportagem de capa da revista norte-americana "Newsweek" de "O próximo Spielberg", Manoj Nelliyattu Shyamalan (tanto a abreviação do primeiro nome quanto o "Night" são da época da faculdade) tinha poder de fogo.

    Seus filmes foram relativamente baratos para os padrões de Hollywood, entre US$ 60 milhões e US$ 70 milhões para fazer. E deram resultado: além de "Sexto Sentido", "Sinais" (2002) faturou US$ 408 milhões; "Corpo Fechado" (2000) e "A Vila" (2004) levaram US$ 250 milhões cada um. Mas o roteiro de "A Dama na Água", seu sétimo longa, tinha problemas.

    Pelo menos é o que achavam os executivos da Disney naquele jantar, liderados por Nina Jacobson. Eles haviam recebido cada um em sua casa cópias do roteiro com seus nomes marcados em cada página, para evitar que algo caísse na internet.

    Mas um personagem chamado História? Que era uma ninfa marinha que vinha do fundo da piscina para salvar o mundo? Um crítico de cinema que era desprezível? E os nomes dos personagens e os termos inventados? "Cleveland" (Paul Giamatti, o zelador do prédio)? "Narf" (a ninfa)? "Tartutic"?

    Nada fazia sentido. O roteiro precisava de mudanças fundamentais. Era a primeira vez que Shyamalan ouvia isso do estúdio para o qual levou mais de US$ 1,5 bilhão em meia década, dinheiro trazido de roteiros originais, não adaptados, o que é algo cada vez mais raro em Hollywood hoje.

    "Com a exceção da Pixar, fiz os quatro filmes seguidos mais lucrativos de todos os tempos", diz o diretor, que se considera uma espécie de Alfred Hitchcock moderno, de quem procura imitar a excentricidade.

    Ele se levantou e foi embora chorando, conforme relata o livro "The Man Who Heard Voices - Or, How M. Night Shyamalan Risked His Career on a Fairy Tale" (O homem que ouvia vozes - Ou como M. Night Shyamalan arriscou sua carreira num conto de fadas), que Michael Bamberger, jornalista de esporte veterano da revista "Sports Illustrated", escreveu a quatro mãos com o diretor nos últimos meses.

    Os executivos foram embora, o diretor mudou-se para a Warner, o filme foi feito por US$ 75 milhões e faturou até agora pouco mais de US$ 40 milhões. Nina Jacobson, a presidente do estúdio, perdeu o emprego dias depois. "Mesmo que o filme dê totalmente errado, ainda terei acertado 80% das vezes", contabiliza Shyamalan no livro. "Continuo um retorno garantido, não?"

    Um conto de fadas para marmanjos...


    As notícias da morte cinematográfica de M. Night Shyamalan foram grandemente exageradas. "A Dama na Água" não é seu melhor filme. Não está nem entre seus quatro grandes -isso de um cineasta que tem apenas sete longas na carreira. Mas está longe de ser inassistível ou incompreensível, como disse parte importante da crítica nos Estados Unidos.

    É um conto de fadas para adultos, e seus defeitos e qualidades vêm do mesmo aparente paradoxo: convencer uma platéia de marmanjos a apreciar uma história infantil, em que uma ninfa chamada História surge no fundo da piscina de um prédio de apartamentos na Filadélfia com a missão de salvar o mundo e, no meio do caminho, unir pessoas e reavivar a criatividade de um escritor.

    Todo o léxico do diretor está aqui: a água como elemento modificador, a criança com a ação definitiva, a importante cena no porão, a ponta do diretor, o personagem principal que procura a redenção de seu passado. Esses tiques e manias fazem o fã sorrir como se estivesse encontrando um velho amigo, mas podem alienar o espectador eventual, que não se identifica com a obra do diretor indo-americano e só quer ver seus R$ 20 renderem as duas horas no shopping, o que é plenamente justificável. Mas vale dar uma chance à história e a História. Quem embarcar no conto estará a caminho de uma grande viagem.

    Por Sergio Dávila (Folha de São Paulo)


    11.8.06

    "Velozes e Furiosos 3" leva carros e garotas para Tóquio


    A franquia "Velozes e Furiosos" atravessa o Pacífico para chegar às corridas de automóveis envenenados na região de Tóquio, repleta de angústia existencial adolescente e cultura pop japonesa.

    "Velozes e Furiosos 3 -- Desafio em Tóquio", estréia da sexta-feira, conserva a fidelidade a suas origens de filmes B.

    A opção de abrir mão de qualquer conexão com os dois longas anteriores e transferir o conceito de garotas e carros quentíssimos para a exótica Tóquio se mostrou acertada para o produtor Neal H. Moritz.

    "Desafio em Tóquio" não é grande coisa como filme, mas é diversão garantida. E daí se o trabalho reduz a cultura japonesa a uma versão barata da Yakuza e traz personagens japoneses que mal falam japonês? Os protagonistas são os carros, todo o resto se perde na tradução.

    O público adolescente e jovem, especialmente o masculino, vai curtir a ação e as garotas asiáticas sensuais de "Desafio em Tóquio", e é provável que poucos espectadores se incomodem com o fato de o personagem principal ser um idiota.

    O idiota em questão é Sean Boswell (Lucas Black), que fala com forte sotaque do Alabama, mas mesmo assim se irrita quando um jovem japonês o chama de "gaijin", ou estrangeiro. Na primeira sequência extensa do filme, que acontece em algum lugar chamado Red Neck, nos EUA, Sean paquera a namorada de outro sujeito e é desafiado para uma corrida de carro.

    Em outra sequência, sua mãe é obrigada a mandar Sean passar algum tempo com seu pai, militar americano estacionado no Japão, para o jovem fugir das consequências legais da destruição provocada pela corrida. Ele paquera a namorada de ainda outro sujeito e é novamente desafiado, etc, etc.

    Não apenas o rapaz se nega a aprender com seus erros, como o filme interpreta esses erros como qualidade positiva do personagem.

    Sean destrói um Nissan Silvia S15 na segunda corrida e acaba tendo que trabalhar para o criminoso nipo-americano Han (Sung Kang). Tudo isso não passa de preparo para sua imersão no fenômeno das corridas de carro japonesas conhecidas como "drift".

    Essas corridas incluem manobras audazes com as quais os pilotos descrevem curvas e reviravoltas perigosas nas montanhas da zona rural japonesa e nos estacionamentos do Japão urbano. Sean leva vários carros até a perda total antes de conseguir dominar a arte, mas, como todos os outros americanos transferidos ao Japão antes dele -- basta pensar em Tom Selleck em "Um peixe fora d'água" ou Tom Cruise em "O Último Samurai" -- ele não demora a superar seus mestres japoneses.

    A trama abarca também o crescente interesse de Sean por Neela (a novata australiana Nathalie Kelley), namorada de um mafioso conhecido como D.K. (Brian Tee).

    Além disso, inclui alguns discursos sobre caráter, confiança e a importância de saber seu próprio lugar. Parece que o filme quer retratar seus personagens como jovens incompreendidos. Na realidade, é fácil compreender que eles são jovens amorais, que só buscam sensações fortes e não se preocupam com nada exceto salvar suas próprias peles.

    O que preocupa é o declínio constante do diretor Justin Lin. Depois de ter criado um dos títulos mais elétricos já exibido no Festival de Sundance, o satírico e irreverente "Better Luck Tomorrow", em 2003, seus dois filmes de 2006, "Annapolis" e agora "Desafio em Tóquio", não revelam uma gota sequer de personalidade criativa cinematográfica.

    Por Kirk Honeycutt - Hollywood Reporter


    11.7.06

    Johnny Depp, libertino ou libertário?


    À espera de Piratas do Caribe 2, ele pode ser visto na pele do poeta John Wilmot



    A duas semanas da estréia de Piratas do Caribe 2 - O Baú da Morte (no dia 21), você pode ver Johnny Depp em outro filme de época que estreou ontem. Não é bem uma aventura. O Libertino, de Laurence Dunmore, é obra intelectualmente mais ambiciosa, o que não significa que seja melhor. Logo na abertura, falando diretamente para o espectador, Depp diz que o público não vai gostar dele. Os homens vão invejá-lo, as mulheres vão sentir nojo.

    Baseado num personagem que existiu de verdade, o poeta John Wilmot, segundo conde de Rochester, O Libertino conta a história desse homem consumido pela realização de seus desejos. Beberrão, conquistador inveterado, ele se interessa por uma jovem atriz, a quem decide transformar em estrela. E tudo isso ocorre no momento em que o próprio rei Charles II, que o banira, o chama de volta para Londres, a fim de atribuir-lhe uma função decisiva no Parlamento, em plena Restauração.

    Talvez o grande problema de O Libertino seja mesmo a participação de Johnny Depp, ótimo ator, mas que não tem physique du rôle para o papel. Laurence Dunmore talvez quisesse justamente jogar com o estranhamento que produz a cândida figura de Eduardo Mãos-de-Tesoura brandindo todas aquelas obscenidades. Depp sai-se melhor como o pirata efeminado Jack Sparrow. Mas o filme passa, vagamente, a idéia de que libertino tem a mesma raiz de liberdade. Quando se luta por ela, não importa em que plano, se arrisca a pagar um preço, por isso.

    Por Luiz Carlos Merten - (Estado de São Paulo)


    16.4.06

    Eli Roth apresenta seu terror político


    "O Albergue" explora assassinatos cometidos por prazer de ricaços sádicos


    Eli Roth esteve no Brasil há cerca de duas semanas para mostrar seu filme O Albergue, que estréia hoje. Ele adora Zé do Caixão. Adoraria ter-se encontrado com José Mojica Marins, mas não foi possível. Roth anda rindo à toa. O Albergue, que custou US$ 4 milhões, já rendeu mais de US$ 50 milhões apenas nos EUA. Os produtores lhe acenam com altos orçamentos para que ele faça O Albergue 2, 3... Ele já trabalha no 2, mas de preferência quer gastar ainda menos. "O público que vai ver esses filmes não quer saber de grandes orçamentos. A pobreza faz parte da atração que eles despertam sobre os espectadores. Eu mesmo me sinto melhor trabalhando com baixos orçamentos, que me obrigam a ser mais criativo."

    Roth é protegido de Quentin Tarantino. Seu filme provoca um banho de sangue como raras vezes se viu na tela, mesmo nesta última safra de terror que anda particularmente sanguinolenta. A estréia, nesta Sexta-Feira Santa, deveria proporcionar material de reflexão para a cúpula da CNBB que, sem ter visto O Código Da Vinci, já anda exortando os fiéis para que não vejam o filme que Ron Howard adaptou do best seller de Dan Brown. Enquanto isso, num dia em que, não faz muito tempo, os cinemas só exibiam A Paixão de Cristo, o que entra hoje é esta fantasia sobre jovens americanos perdidos na Europa e confrontados com uma organização que cobra caro para que milionários possam exercer seu esporte favorito. Matar gente.

    A forma de matar fica por conta de quem paga. Pauladas, serra elétrica, tiro, ácido, remoção de órgãos sem anestesia. Vale tudo. Roth disse que teve a idéia sinistra por causa da internet. Em países como a Tailândia, circulam na internet histórias sobre famílias que cobram US$ 10 mil para que você faça não importa o que com alguns de seus integrantes. Roth juntou a esse horror uma experiência pessoal. Ele próprio, anos atrás, foi a Paris como mochileiro e depois circulou pelo Leste Europeu, na fase da derrocada do comunismo. Encontrou um mundo devastado e sem valores. Juntando a internet e esse assustador mundo velho, ele fez O Albergue.

    No original, chama-se Hostel e o som é o mesmo para a palavra hostil, em inglês. "Queria justamente explorar o duplo sentido", explica o diretor, que cita com grande orgulho o que lhe disse George A. Romero. "Seu filme é o terror mais político desde A Noite dos Mortos Vivos." Romero referia-se ao filme que ele próprio realizou em 1968, concentrando todos os problemas dos EUA assolados pela Guerra do Vietnã e pelos conflitos raciais, além de assassinatos políticos, na história do grupo que resiste às investidas de mortos vivos. Tudo faz sentido em O Albergue. Cada frase, cada imagem. Tudo foi cuidadosamente planejado por Roth. Crítico do presidente George W. Bush e do processo de globalização que avilta a pessoa humana e cria padrões de competitividade que anulam os excluídos, ele diz que o mundo nunca foi mais propício à realização de filmes de horror que na atualidade. "Há uma saturação da violência e uma indiferença pelo sofrimento alheio que tudo permite." Roth não sabe até que ponto as histórias da internet são verdadeiras. Espera que o consumo de seu filme não seja fácil. "Fiz O Albergue para provocar mal-estar", afirma.

    Por Luiz Carlos Merten - (Estado de São Paulo)


    15.2.06

    SPOILER ESPECIAL: Mundo Berlinale 2006

    Oskar Roehler jura: não quis ofender o Brasil


    "Partículas Elementares", do diretor alemão, tem frase que fala do País como lugar de traficantes e prostitutas aidéticas


    Oskar Roehler jura que não quis ser ofensivo com o Brasil. O que ele diz sobre o País em Partículas Elementares está no livro de Michel Houllebecq em que ele se baseou. O filme, como o livro, trata de dois irmãos e suas atitudes em relação ao amor. Um é cientista e pesquisa formas artificiais de reprodução humana sem contato sexual. O outro é obcecado pelo intercurso, mas não dá muita sorte com as mulheres. A uma, que o troca por um sujeito que quer dançar o samba, ele diz que o Brasil é um lugar de traficantes e prostitutas (a palavra é mais dura) aidéticas. "Michel escreveu isso", justifica-se Roehler. Pessoalmente, ele diz que simpatiza com o Brasil e achou a definição romântica.

    O filme está sendo muito discutido em Berlim. O próprio livro de Houllebecq, embora premiado, está longe de ser uma unanimidade e é muito contestado na França. Houllebecq é um crítico social intenso e um escritor poderoso, mas também é manipulador e pessimista. Roehler não leva esse pessimismo até o fim. O filme meio que faz um arranjo, à maneira de happy end. O repórter aproveita para perguntar - se ele mudou tanta coisa na adaptação, por que foi fiel justamente na observação preconceituosa sobre o Brasil? Ele acha graça e pede desculpas. O repórter pede que ponha as desculpas no próximo filme. A propósito, vai ser de novo sobre sexo, esse tema que obceca parte do novo cinema alemão? "Não, pretendo fazer algo diferente", diz Roehler. Um conto de fadas, o repórter insiste? "Sim, mas com cenas de sexo", o diretor retruca, e acrescenta. "Não confio em quem não gosta de sexo."

    O tema tem estado presente em muitos filmes aqui na Berlinale. Após a mulher vítima de estupro no belo Grbavica, da cineasta da Bósnia Jasmila Zbanic, veio o estuprador de Free Willie, do alemão Matthias Glasner. O filme tem um ator excepcional, Jurgen Vogel, o melhor, até agora. A primeira parte de Free Willie é muito boa. O cara comete vários estupros, é preso e passa nove anos na cadeia. Solto, tenta recomeçar a vida, mas a adaptação é difícil. Ele pratica artes marciais. Luta contra um inimigo imaginário - na verdade, ele mesmo. O apelo erótico está em toda parte, em outdoors, na TV. Uma mulher passa pelo atormentado protagonista usando uma camiseta decotada, na qual está escrito Brasil. A primeira parte é realmente maravilhosa; a segunda (o filme tem três horas) vira filme de horror, de tão horrível, quando ele se envolve com uma mulher meio pirada, não tem estrutura para aceitar certas coisas que ela faz e volta aos estupros.

    É exatamente o contrário de Invisible Waves, co-produção de Hong Kong, da Coréia e da Tailândia, com direção do tailandês Pen-Ek Ratanaruang. O filme é um noir. Conta a história desse homem que comete um assassinato e foge, ingressando num verdadeiro pesadelo. Começa pelo fim, quando ele aponta um revólver para um sujeito que a gente não vê. Ao cabo das suas desventuras no estrangeiro, o dublê de cozinheiro e assassino volta a Macao para se vingar do homem que o contratou para matar a mulher dele. O filme é muito interessante, mas a meia-hora final é maravilhosa, cheia de mistério e sutileza e com um pouco daquela poesia meio indecifrável de Doença Tropical, que tanto sucesso fez na mostra, há dois anos.

    Por Luis Carlos Merten