Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

11.5.07

"Lady Vingança": Um novo capítulo na Trilogia da Vingança de Chan Wook-Park


Não é difícil compreender que existam pessoas que tenham se frustrado com o último episódio da "trilogia da vingança" de Park Chan-wook, mas só não compartilho do sentimento.

Talvez eu tenha dado sorte de poder assistir aos três filmes em seqüência (deixe-me tirar logo do caminho e dizer que se assistir "Sympathy for Mr. Vengeance" pela primeira vez é incrível, pela segunda vez é ainda melhor: puta que o pariu, que disciplina! Que trabalho de visualização e concretização de um roteiro! Duvido que um americano - do norte, centro ou sul - consigua ter tal visão e materializá-la na tela com tanta... organização, método ou sabe-se lá o que você quer chamá-la). Talvez seja o fato de que eu tenha dissociado os três filmes entre si, esquecendo do rótulo ¿trilogia¿, não os admitindo como um novelão em capítulos ou como variações sobre o tema que os une. Mas comparações entre "Mr. Vengeance", "Oldboy" e esse último são inevitáveis e acabarei caindo vítima das mesmas. Mil desculpas por isso.

Dos três, "Lady Vingança" é o que traz o dilema moral mais enfraquecido. É o que também traz o aspecto "Desejo de matar" desenrolado da maneira mais quadradona - o filme não estabelece uma situação complexa como "Mr. Vengeance" ou é abastecido por um mistério como "Oldboy". De cara, nós sabemos que a jovem Lee Geum-Ja é injustamente presa pelo seqüestro e assassinato acidental de uma criança. Sabemos também que o culpado é o seu marido Baek, que não só a incrimina como permanece em liberdade. Daí em diante, Park nos fará de cúmplices, pouco a pouco, a um elaborado esquema de vingança, numa narrativa que vai e volta no tempo, revelando os relacionamentos desenvolvidos por Lee no cárcere, os aspectos de seu plano (Lee Geum-Ja adota algumas liberdades poéticas que tornam sua vingança mais operática) e a personalidade não só de Lee como a de todos os envolvidos.

A chave para maior apreciação do filme - funcionou comigo, pelo menos ¿ é identificar nas citadas liberdades poéticas tomadas por Lee a filosofia que rege "Lady Vingança", estilisticamente, narrativamente, o que seja. Vingança é um prato que se come frio, daí a elaboração do plano de vingança ser tão complexa e extensa: para aplacar a fúria de ter sido injustamente presa (além do trauma eterno de estar envolvida no assassinato de um inocente), o culpado não pode ter apenas uma mortezinha; ele tem que Morrer! O filho da puta tem que ir para o além gritando de dor! Lee Geum-Ja só terá uma oportunidade de saborear sua vingança e só há um jeito de conseguir a catarse que tanto almeja. Não existem retakes. Ela não pode se dar ao luxo de ter uma vingança 80% satisfatória. É agora ou nunca mais.

E talvez seja aqui que muitas pessoas se frustrem tanto. De todos os personagens que encabeçaram a trilogia de Park, Lee Geum-Ja é a que tem os motivos mais claros e compreensíveis para se vingar. A personagem adquire empatia imediata da platéia. O espectador não debate nenhuma questão moral que vá se impor, na realidade o espectador anseia que Lee pegue o filho da puta (que é muito pior do que achamos) de jeito. Acontece que nem Park, nem a personagem vão mostrar as cartas tão cedo (inclusive adiando o máximo possível o desenvolvimento do plano, através dos vários flashbacks e da inclusão de numerosos personagens secundários, mas fundamentais). "Lady Vingança" constrói o seu momentum, limando a violência de cenas mais chocantes (aqui, a violência é mais sugerida do que mostrada na tela), o que pode decepcionar - e muito - os que esperam mais um "Oldboy". Sorry, nada de polvos ou marteladas nesse filme.

Desde os créditos iniciais, portanto, "Lady Vingança" se firma como o filme mais visualmente rebuscado do diretor. "Lady Vingança" é um deleite só de se observar. A fotografia é deslumbrante (ironizando "Kill Bill", o DVD lançado na Coréia tem uma versão em que o filme gradualmente se torna preto-e-branco) e a escolha dos enquadramentos, dos cortes, da direção de arte, tudo é um negócio de outro mundo. Melhor ainda: tudo forma um conjunto homogêneo que faz o filme fluir. O espectador mais interessado nesses aspectos vai sair da sessão rezando para uma reprise; há muito o que ver, o que prestar atenção, é divertido destrinchar o filme em suas características mais técnicas para descobrir que dificilmente existe um componente de cena gratuito, uma montagem sem propósito. Um dos aspectos que acaba se destacando imediatamente é a trilha sonora, de todos os filmes de Park a melhor, com o tema mais memorável e que melhor se encaixa na história.

Talvez o público também já tenha agüentado sua cota de justiceiras, após "Kill Bill", Lorena Bobbitt e tantas outras. Muito da expectativa em torno de um filme vem do desejo de se assistir algo revolucionário, inovador, algo que nem "Kill Bill", nem esse são realmente. É outro erro achar que "Kill Bill" e "Lady Vingança" estão em nível de competição. As semelhanças não param apenas na escolha de mulheres para protagonistas - vão até o papel do marido enquanto vilão, a questão maternal (em ambos, as filhas representam um papel fundamental). Mas se a americana era um bicho, determinada, agindo por instinto, a coreana é uma enxadrista cruel, sem hesitar em sacrificar peças chaves ou, inclusive, a sua própria vida. Enquanto "Kill Bill" trabalha com estéticas de filmes japoneses de samurais, western-spaghetti ítalo-americanos, kung-fu chineses, blaxploitation, thrillers p&b cinqüentistas, anime e o escambau, "Lady Vingança" trabalha sim com o thriller noventista norte-americano, com os filmes de prisão feminina dos anos 60-70, com a comédia pastelão (num final de beleza incomparável), mas está mais preocupado em relê-los poeticamente. "Lady Vingança" tem um quê de paródia, inclusive dos filmes que o antecedem na trilogia, mas nunca os diminuindo ou fazendo troça.

Deliciosamente perverso, o filme traz consigo uma insuspeita carga de humor, ainda que negro. Cenas como a visita de Lee Geum-Ja à casa dos pais adotivos de sua filha ou uma cena de curra são tão hilárias quanto surpreendentes. A verve cômica do diretor está a mil, mas o espectador mais purista vai deixar as gags visuais passarem batido. O que nos leva à cena antológica do ano, que provocou as reações mais polarizadas da platéia com quem assisti ao filme. Não posso revelar muito, mas imagine uma reunião de pais e mestres que dá incrivelmente errado. É o clímax do filme, que vem sendo preparado desde o logo da CJ Entertainment, mas quando acontece quase duas horas depois... é inacreditável: ao mesmo tempo em que eu gargalhava de maneira quase incontrolável, não conseguia sequer piscar, hipnotizado pelos acontecimentos que se desenrolavam na tela. Aqui Park provoca nossa moral, ironiza o processo democrático, testa nossos nervos, tudo ao mesmo tempo, é uma seqüência tão excitante quanto desgastante emocionalmente. Uma cena clássica destinada a morar na memória do espectador. Gostaria de poder divagar mais sobre ela, mas tenho que poupar quem está por assisti-la: sua descoberta provoca aquele impacto que amantes do cinema vivem procurando repetir.

Porém, "Lady Vingança" ainda se estende por algum tempo, o que dá tempo para o espectador abaixar os níveis de adrenalina. "Lady Vingança", o filme, já teria terminado por aqui, mas "Lady Vingança", a alegoria sobre a violência que tem a responsabilidade de fechar toda uma série de filmes, precisa desse epílogo, em que a personagem se dirige ao espectador e pede que ele permaneça limpo, puro. Quando Park Chan-wook desvirtua o símbolo máximo da comédia pastelão - a torta na cara - e o transforma em imagem maior do indivíduo eternamente buscando redenção, a limpeza do seu karma, o indivíduo eternamente "sujo", o diretor nos questiona: o que é justiça, se para consegui-la acabamos nos condenando?

...E eu nem falei do elenco: Lee Yeong-ae está brilhante no papel principal, Min-sik Choi já se tornou o ator que o bom espectador tem a obrigação de assistir tudo o que fizer, todas as coadjuvantes, inclusive a caminhoneira escrota da prisão, são excelentes. Estou tendo que me forçar a parar de escrever sobre o filme. Park Chan-wook se firma como um dos grandes diretores da atualidade, graças a Deus. Não é difícil compreender por que muitos se frustraram com "Lady Vingança": é pura e simples estupidez da parte deles.

Por Bernardo Krivochein - Zeta Filmes