"Lady Vingança": Um novo capítulo na Trilogia da Vingança de Chan Wook-Park

Não é difícil compreender que existam pessoas que tenham se frustrado com o último episódio da "trilogia da vingança" de Park Chan-wook, mas só não compartilho do sentimento.
Talvez eu tenha dado sorte de poder assistir aos três filmes em seqüência (deixe-me tirar logo do caminho e dizer que se assistir "Sympathy for Mr. Vengeance" pela primeira vez é incrível, pela segunda vez é ainda melhor: puta que o pariu, que disciplina! Que trabalho de visualização e concretização de um roteiro! Duvido que um americano - do norte, centro ou sul - consigua ter tal visão e materializá-la na tela com tanta... organização, método ou sabe-se lá o que você quer chamá-la). Talvez seja o fato de que eu tenha dissociado os três filmes entre si, esquecendo do rótulo ¿trilogia¿, não os admitindo como um novelão em capítulos ou como variações sobre o tema que os une. Mas comparações entre "Mr. Vengeance", "Oldboy" e esse último são inevitáveis e acabarei caindo vítima das mesmas. Mil desculpas por isso.
Dos três, "Lady Vingança" é o que traz o dilema moral mais enfraquecido. É o que também traz o aspecto "Desejo de matar" desenrolado da maneira mais quadradona - o filme não estabelece uma situação complexa como "Mr. Vengeance" ou é abastecido por um mistério como "Oldboy". De cara, nós sabemos que a jovem Lee Geum-Ja é injustamente presa pelo seqüestro e assassinato acidental de uma criança. Sabemos também que o culpado é o seu marido Baek, que não só a incrimina como permanece em liberdade. Daí em diante, Park nos fará de cúmplices, pouco a pouco, a um elaborado esquema de vingança, numa narrativa que vai e volta no tempo, revelando os relacionamentos desenvolvidos por Lee no cárcere, os aspectos de seu plano (Lee Geum-Ja adota algumas liberdades poéticas que tornam sua vingança mais operática) e a personalidade não só de Lee como a de todos os envolvidos.
A chave para maior apreciação do filme - funcionou comigo, pelo menos ¿ é identificar nas citadas liberdades poéticas tomadas por Lee a filosofia que rege "Lady Vingança", estilisticamente, narrativamente, o que seja. Vingança é um prato que se come frio, daí a elaboração do plano de vingança ser tão complexa e extensa: para aplacar a fúria de ter sido injustamente presa (além do trauma eterno de estar envolvida no assassinato de um inocente), o culpado não pode ter apenas uma mortezinha; ele tem que Morrer! O filho da puta tem que ir para o além gritando de dor! Lee Geum-Ja só terá uma oportunidade de saborear sua vingança e só há um jeito de conseguir a catarse que tanto almeja. Não existem retakes. Ela não pode se dar ao luxo de ter uma vingança 80% satisfatória. É agora ou nunca mais.
E talvez seja aqui que muitas pessoas se frustrem tanto. De todos os personagens que encabeçaram a trilogia de Park, Lee Geum-Ja é a que tem os motivos mais claros e compreensíveis para se vingar. A personagem adquire empatia imediata da platéia. O espectador não debate nenhuma questão moral que vá se impor, na realidade o espectador anseia que Lee pegue o filho da puta (que é muito pior do que achamos) de jeito. Acontece que nem Park, nem a personagem vão mostrar as cartas tão cedo (inclusive adiando o máximo possível o desenvolvimento do plano, através dos vários flashbacks e da inclusão de numerosos personagens secundários, mas fundamentais). "Lady Vingança" constrói o seu momentum, limando a violência de cenas mais chocantes (aqui, a violência é mais sugerida do que mostrada na tela), o que pode decepcionar - e muito - os que esperam mais um "Oldboy". Sorry, nada de polvos ou marteladas nesse filme.
Desde os créditos iniciais, portanto, "Lady Vingança" se firma como o filme mais visualmente rebuscado do diretor. "Lady Vingança" é um deleite só de se observar. A fotografia é deslumbrante (ironizando "Kill Bill", o DVD lançado na Coréia tem uma versão em que o filme gradualmente se torna preto-e-branco) e a escolha dos enquadramentos, dos cortes, da direção de arte, tudo é um negócio de outro mundo. Melhor ainda: tudo forma um conjunto homogêneo que faz o filme fluir. O espectador mais interessado nesses aspectos vai sair da sessão rezando para uma reprise; há muito o que ver, o que prestar atenção, é divertido destrinchar o filme em suas características mais técnicas para descobrir que dificilmente existe um componente de cena gratuito, uma montagem sem propósito. Um dos aspectos que acaba se destacando imediatamente é a trilha sonora, de todos os filmes de Park a melhor, com o tema mais memorável e que melhor se encaixa na história.
Talvez o público também já tenha agüentado sua cota de justiceiras, após "Kill Bill", Lorena Bobbitt e tantas outras. Muito da expectativa em torno de um filme vem do desejo de se assistir algo revolucionário, inovador, algo que nem "Kill Bill", nem esse são realmente. É outro erro achar que "Kill Bill" e "Lady Vingança" estão em nível de competição. As semelhanças não param apenas na escolha de mulheres para protagonistas - vão até o papel do marido enquanto vilão, a questão maternal (em ambos, as filhas representam um papel fundamental). Mas se a americana era um bicho, determinada, agindo por instinto, a coreana é uma enxadrista cruel, sem hesitar em sacrificar peças chaves ou, inclusive, a sua própria vida. Enquanto "Kill Bill" trabalha com estéticas de filmes japoneses de samurais, western-spaghetti ítalo-americanos, kung-fu chineses, blaxploitation, thrillers p&b cinqüentistas, anime e o escambau, "Lady Vingança" trabalha sim com o thriller noventista norte-americano, com os filmes de prisão feminina dos anos 60-70, com a comédia pastelão (num final de beleza incomparável), mas está mais preocupado em relê-los poeticamente. "Lady Vingança" tem um quê de paródia, inclusive dos filmes que o antecedem na trilogia, mas nunca os diminuindo ou fazendo troça.
Deliciosamente perverso, o filme traz consigo uma insuspeita carga de humor, ainda que negro. Cenas como a visita de Lee Geum-Ja à casa dos pais adotivos de sua filha ou uma cena de curra são tão hilárias quanto surpreendentes. A verve cômica do diretor está a mil, mas o espectador mais purista vai deixar as gags visuais passarem batido. O que nos leva à cena antológica do ano, que provocou as reações mais polarizadas da platéia com quem assisti ao filme. Não posso revelar muito, mas imagine uma reunião de pais e mestres que dá incrivelmente errado. É o clímax do filme, que vem sendo preparado desde o logo da CJ Entertainment, mas quando acontece quase duas horas depois... é inacreditável: ao mesmo tempo em que eu gargalhava de maneira quase incontrolável, não conseguia sequer piscar, hipnotizado pelos acontecimentos que se desenrolavam na tela. Aqui Park provoca nossa moral, ironiza o processo democrático, testa nossos nervos, tudo ao mesmo tempo, é uma seqüência tão excitante quanto desgastante emocionalmente. Uma cena clássica destinada a morar na memória do espectador. Gostaria de poder divagar mais sobre ela, mas tenho que poupar quem está por assisti-la: sua descoberta provoca aquele impacto que amantes do cinema vivem procurando repetir.
Porém, "Lady Vingança" ainda se estende por algum tempo, o que dá tempo para o espectador abaixar os níveis de adrenalina. "Lady Vingança", o filme, já teria terminado por aqui, mas "Lady Vingança", a alegoria sobre a violência que tem a responsabilidade de fechar toda uma série de filmes, precisa desse epílogo, em que a personagem se dirige ao espectador e pede que ele permaneça limpo, puro. Quando Park Chan-wook desvirtua o símbolo máximo da comédia pastelão - a torta na cara - e o transforma em imagem maior do indivíduo eternamente buscando redenção, a limpeza do seu karma, o indivíduo eternamente "sujo", o diretor nos questiona: o que é justiça, se para consegui-la acabamos nos condenando?
...E eu nem falei do elenco: Lee Yeong-ae está brilhante no papel principal, Min-sik Choi já se tornou o ator que o bom espectador tem a obrigação de assistir tudo o que fizer, todas as coadjuvantes, inclusive a caminhoneira escrota da prisão, são excelentes. Estou tendo que me forçar a parar de escrever sobre o filme. Park Chan-wook se firma como um dos grandes diretores da atualidade, graças a Deus. Não é difícil compreender por que muitos se frustraram com "Lady Vingança": é pura e simples estupidez da parte deles.
Por Bernardo Krivochein - Zeta Filmes
posted by Marfil at 10:36 AM