![]() Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema! |
29.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"Little Red Flowers" tem vigor interpretativo, carisma infantil, e estética que por vezes beiram o primor Filme interessante esse de Zhang Yuan. Atemporal pelo que nos é mostrado, coloca a grande e antiqüíssima China como um país que, além da distância, se mantém estranha para nós quando a percebemos numa espécie de limbo temporal; um fato potencializado pelo filme que desnuda o modo adotado para a educação infantil no país. Não que seja uma maneira errada a utilizada com as pequeninas crianças na instituição em que se desenrola a trama, mas os modos de ensino e educação causam bastante estranhamento em nós, "modernos ocidentais", com sua opção por antigas crenças (verdades?) quanto ao que é bom para a saúde e maneiras de tratamento dedicadas aos petits. Quando imaginamos a enormidade do país e a enormidade populacional, muito do que o filme mostra passa a soar como melhor maneira a ser exercida, e o tal estranhamento pode passar a receber olhares de mais admiração.
Mas o que importa mesmo no trabalho é que, na aparência, numa primeira e mais preguiçosa olhada, o que pode restar é uma sensação de obtenção simplista de resultado ou "bizarrice" - aí, pelo bem ou pelo mal. Mas o filme vai muito mais longe. Na realidade é recheado de sub-textos e oferece uma infinidade de sub-leituras a quem se dedicar e interessar. O diretor transita pelo mundo da inocência total, modificando-a - com os mesmos personagens desenvolvendo várias facetas - ao modo do não tão puro e por vezes maldoso comportamento que manifestam as crianças. Coloca, num contraponto (ou convergência), a educação e a diversão, observadas numa mesma tomada, abaixo de exercícios de rigidez e obediência militar, típica de um país que se imagina à parte no mundo. Escapa, com a câmera transitando de maneira bastante elaborada, para situações de teor "fabulesco", com qualidade superior de cinema bem filmado que é ressaltado pela qualidade da execução musical. "Oferece" às crianças, as possibilidades que um país governado por ditadura pode oferecer a quem não se comportar como exigido. Choca com a reação do garoto que diz gostar do clima do hospital vizinho à instituição, preferindo-o ao rigor imposto pela professorinha. Sinceramente, são inúmeras possibilidades de entendimento, e o mais bacana é que Yuan não "maniqueisa" seus personagens, separando-os por idade ou função entre bons e maus; todos tem comportamentos que se alternam, por vezes são "bons", por outras "maus", quando observados por uns - em momentos bastante específicos - ou executando atitudes "necessárias". E tem vigor interpretativo, carisma infantil, e estética que por vezes beira o primor - sem escorregar quando possíveis armadilhas se delineiam. Por Cid Nayer - Cinequanon.art.br 27.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"Shortbus" tempera sexo com humor Quem ficar incomodado com a seqüência inicial de "Shortbus", que passa hoje na Mostra, por conta da nudez frontal e do inocente xixi na banheira do personagem James (Paul Dawson), não pode nem imaginar a maratona de sexo explícito que o diretor e roteirista John Cameron Mitchell reserva para boa parte dos cem minutos seguintes. Um colorido mosaico de relações homo e heterossexuais, orgias etc. Mas, calma lá, não se trata de um filme pornográfico. As cenas de sexo surgem tão bem amarradas à narrativa quanto as canções e dança de um musical como "Oklahoma!", como descreveu a crítica do jornal "New York Times".
"O sexo aparece integrado às vidas dos personagens", disse Mitchell à Folha, durante a apresentação de seu filme no Festival de Toronto. "Queria usá-lo como a música em "Hedwig - Rock, Amor e Traição" [seu primeiro filme], uma metáfora para revelar os personagens sem usar palavras. Por isso não se pode comparar "Shortbus" a um filme pornográfico. Poucas pessoas se excitam sexualmente ao vê-lo, e, quando isso acontece, é algo periférico. A idéia não é chocar ou excitar. Quando ele termina, a última coisa em que se pensa é no sexo. Como no fim de uma relação boa. Diferente do que se sente após ficar apenas uma noite com alguém." O "projeto para um filme de sexo" de Mitchell começou ainda nos anos 90, quando diretores como a francesa Catherine Breillat, de "Romance", romperam a censura sutil do fantasma da Aids e voltaram a explorar o erotismo em seus filmes. Mas Mitchell queria não somente ousar na representação, para fazer contraponto ao sexo sem suor de Hollywood. Para ele, sobrava negatividade no sexo cinematográfico, associado à frustração ou violência, e faltava humor. E um viés político. Numa seqüência de "Shortbus", por exemplo, três rapazes entoam o hino nacional americano durante um ménage à trois. "Ser americano é um monte de coisas, ser patriótico também. Sou patriótico, não da mesma forma que Bush é, mas sou", disse Mitchell. "Shortbus" -nome daqueles ônibus escolares amarelos e também de uma festa mensal que Mitchell comandava em Nova York- acompanha os conflitos amoroso-sexuais de sete personagens: uma terapeuta sexual que nunca teve um orgasmo (Sook-Yin Lee, apresentadora de TV canadense) e seu marido (Raphael Barker), uma dominatrix solitária (Lindsay Beamish), um voyeur (Peter Stickles), um casal gay (Dawson e PJ DeBoy, namorados na vida real) que não consegue transar, e Ceth (Jay Brannan), jovem que parece ser o vértice ideal para um eventual triângulo deste casal. Para arregimentar seu corajoso elenco -"cult" na atual temporada nova-iorquina de estréias, com o casal DeBoy e Dawson sendo fotografado por Bruce Weber para a "Interview"- Mitchell evitou agentes e estrelas, "porque eles não fazem sexo à frente das câmeras nem poderiam ficar disponíveis tanto tempo". O diretor colocou anúncios numa página na internet pedindo testes em vídeo etc., teve meio milhão de acessos e recebeu 500 fitas. "Chegamos inicialmente a um grupo de 40 pessoas interessantes, inteligentes, distintas e sexy. Pensamos na compatibilidade sexual e fechamos em nove pessoas antes mesmo de termos uma trama. Eu sabia apenas que o filme se passaria em Nova York, que envolveria sexo com casais distintos. Fizemos oficinas um pouco como Mike Leigh, e a partir das improvisações eu fiz o roteiro. Ensaiamos, e eu reescrevi o roteiro por mais de dois anos antes de filmar", contou Mitchell. Os atores escolheram seus nomes e ajudaram a determinar seus conflitos que, se já não são assombrados pela Aids, não deixam de conviver com outro fantasma: o 11 de Setembro. O atentado está presente no longa, seja insinuado na "forma" dos piques de luz e eventual blecaute que acontecem no filme. Ou na tristeza, vazio e solidão que levam seus personagens a freqüentar o Shortbus, misto de clube de sexo e cabaré, que "lembra os anos 60, só que com menos esperança", como observa Justin Bond, famosa drag queen nova-iorquina que faz ponta no filme. "Lembro que os ataques aconteceram um mês antes da estréia comercial de "Hedwig". É uma sombra que continua sobre a cidade, que uniu a cidade. O sentimento que aparece no filme é o mesmo que a cidade experimentou na época. Um certo otimismo que veio dos próprios atores", disse Mitchell, que, em entrevista ao "New York Times", chamou seu filme de "pequeno ato de resistência contra Bush e a América em que vivemos". "A cidade está mudando, mas ainda é Nova York. É ainda a cidade de artistas, de todas as pessoas que criaram uma certa sinergia criativa representada no filme pelo clube, que é sexual, mas também artístico." Por Eduardo Simões - Folha de São Paulo 25.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"Você Disse que Me Amava" trata com simpatia dilemas da terceira idade Já houve um tempo em que o diretor e roteirista Rudolf Thome representava a corrente mais inquieta do cinema alemão, com filmes irreverentes como "O Filósofo" (1989), que participou da 13ª Mostra. Hoje, aos 66 anos, talvez menos preocupado em contestar e chocar, ele consegue extrair matéria-prima intimista de estudos cuidadosos de personagens, como demonstra "Você Disse que Me Amava".
O filme é construído, de maneira quase minimalista, em torno da ex-campeã de natação Johanna, recém-saída de um casamento que lhe deixou ressentimentos. É uma mulher aposentada, na faixa dos 60, o que acrescenta alguns pontos ao quadro: medo da solidão, obsessão em relação à morte e dificuldade em ocupar o tempo com algo a que consiga atribuir significado especial, uma vez que a filha já é adulta. As reflexões de Johanna sobre esse dilemas cotidianos fazem a história caminhar lentamente, respeitando o tempo que ela precisa para contemplar o meio que a cerca e pensar em modos de transformá-lo. Um aspirante a escritor acelerará o processo. Deus é invocado com alguma freqüência nas divagações de Johanna, bem como lembranças da mãe, já morta. Experiência religiosa e herança familiar são eixos aos quais ela se remete para compreender por que parece vítima de um ciclo vicioso que não começa (muito menos termina) com ela. Nessa jornada de autoconhecimento sobre uma mulher que encontra tempo e forças para reconstruir a vida, fantasmas do passado são revividos para cobrir de sombras o presente, mas não impedem, enfrentados a duras penas, que se vislumbre futuro no qual ainda haja espaço para relacionamentos, projetos e viagens, nos sentidos literal e figurado. Espaço, em resumo, para abrir-se novamente ao mundo. "Você Disse" defende a idéia simpática de que não há idade-limite para sonhar. Por Sérgio Rizzo - Folha de São Paulo 24.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"Sonhos com Shangai" exibe China contraditória Não foi uma vitória fácil.
O Prêmio do Júri de Cannes-2005 dado a "Sonhos com Shangai", de certa forma surpreendente, deixou de lado bons títulos de cineastas importantes, como David Cronenberg ("Marcas da Violência"), Wim Wenders ("Estrela Solitária") e Gus Van Sant ("Last Days"), entre outros. O júri presidido por Emir Kusturica certamente foi seduzido pela sobriedade do longa do chinês Wang Xiaoshuai (de "Bicicletas de Pequim", Grande Prêmio do Júri em Berlim-2001), que, ao tratar de uma das temáticas mais básicas de todo o cinema oriental -o conflito entre o antigo e o moderno, personificado no turbulento relacionamento entre a jovem Qing Hong (Yuanyuan Gao) e seu pai (Anlian Yao)-, paulatinamente exibe todo o desconforto e as contradições que a gigante China não vende em reuniões nas quais se apresenta como "global player". A precisão de Xiaoshuai pode ser confundida com frieza, mas o tom de seu filme dialoga com obras mais intimistas de seus pares, como "Dezessete Anos", de Zhang Yuan, e "Nenhum a Menos", de Zhang Yimou (antes dele se render às facilidades do cinema de gênero). "Sonhos com Shangai" é ambientado na distante província de Ghizou, região para onde são enviadas diversas famílias de grandes centros. O governo central pretendia desenvolver os grotões de um país de dimensões continentais. A capital é tema de vários diálogos, mas concretamente não passa de um sonho não-realizado. Qing está completamente ambientada à cidade e vive as turbulências típicas da idade, que ganham tintas mais dramáticas devido à rigidez paterna. Seu pai acredita que é um exilado, não se furta a chamar o local de "fim de mundo" e condena sua mulher pela opção da mudança -aparentemente, foi ela quem preferiu mudar-se para o interior. De um modo mais amplo, os próprios dilemas da modernidade da China se refletem nos personagens. O núcleo jovem do filme copia modismos ocidentais, tenta se rebelar contra a severidade dos costumes locais, diverte-se em festas que têm como trilha sonora um rock algo brega dos anos 80. E é uma dessas festas que rende uma das melhores passagens de "Sonhos", quando o galã local exibe todos os seus dotes de dançarino e seduz Xiao Zhen (Xueyang Wang), a melhor amiga de Qing. O encontro festivo é abortado em razão de uma briga promovida por turmas de fábricas rivais. Esse mimetismo alinhavado aos solavancos também acontece entre os egressos de Xangai e os "locais". O pai de Qing condena com vigor o namoro de sua filha com um jovem operário. Segue-a e manda que jogue fora presentes e cartas dados por ele. Os conflitos se acirram no terço final do filme, quando ocorre um ato violento e inesperado. As tensões do pai de Qing em seu ambiente de trabalho também chegam a um ponto insustentável, e ele toma uma decisão radical. As manhãs cinzentas e chuvosas refletem a atmosfera nebulosa dos sentimentos dos personagens. A tristeza que perpassa grande parte dos fotogramas do longa dialoga muito com os paradoxos da China, enigmática aos olhos ocidentais e problemática para muitos de seus habitantes. Por Mário Gioia - Folha de São Paulo 23.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
"O Cheiro do Ralo" é uma deliciosa ironia da sociedade A parceria entre o consagrado quadrinhista brasileiro Lourenço Mutarelli e o publicitário e cineasta Heitor Dhalia começou com o elogiado "Nina". No filme de 2004, o escritor e desenhista cuidou das viscerais passagens animadas. Agora, no longa "O cheiro do Ralo", atinge maior expressão, já que adapta para as telonas o primeiro romance de Mutarelli, que - veja só! - aproveita para debutar também como ator.
O roteiro adaptado é do próprio Dhalia e Marçal Aquino (Crime delicado, O invasor), sujeito que dispensa apresentações. A dupla já trabalhou junta em Nina e retoma aqui a ótima colaboração, ao transportar a obra sem perder um grama sequer de sua deliciosa ironia. Na trama, Lourenço (Selton Mello), um comprador de objetos usados, vive enfurnado em um galpão, protegido dos fracassados do mundo por uma secretária (Martha Meola) e um segurança (o próprio Mutarelli, divertidíssimo). Os dois cuidam de filtrar os desesperados que podem entrar na sala do chefe e oferecer seus tesouros e tralhas a ele. Lourenço começa o filme quase normal. É noivo, come estrogonofe com batatinha ao lado da futura esposa, dirige uma Veraneio e leva a vida de forma comum. Porém, conforme aumenta o cheiro desagradável que vem do ralo do banheiro de seu caótico escritório, cresce também a sensação de poder dele, de domínio sobre aqueles desgraçados que ele "coisifica", catalogando-os em função de seus objetos. Começam também as obsessões... um olho de vidro, uma bunda continental... na mente de Lourenço, tudo está conectado. Dhalia leva com competência a obra marginal de Mutarelli às telas, enriquecendo a narrativa com pequenas pistas visuais sobre a questionável personalidade do personagem. Direção de arte, fotografia, figurino, tudo espelha o universo do comprador de velharias, que dá vida ao ambiente disparando engraçadíssimas frases de efeito com a mesma facilidade que respira e se afunda no ar fedido do banheirinho. Mas nem todo o talento cinematográfico do planeta teria êxito em levar à tela essa história, que depende quase que exclusivamente do personagem principal, se não houvesse um protagonista perfeito liderando o elenco. Selton Mello abraça a cria de Mutarelli e a arranca das páginas do livro com cínica perfeição. A voz rouca do ator e sua atitude blasé dão ao anti-herói trash sua carne e osso, mas é a genial desconfiança de Mutarelli sobre a sociedade responsável pela sua alma deliciosamente perturbada. Por Érico Borgo - Omelete 22.10.06
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"O Guardião" testa bordas do cinemaCom filme de estréia sobre guarda-costas, o argentino Rodrigo Moreno foi premiado em Berlim e ganhou atenção mundial O que acontece na intimidade de alguém que está sempre confinado aos lugares em que (aparentemente) nada de importante acontece?
O cineasta argentino Rodrigo Moreno ensaia essa pergunta e uma resposta com seu longa-metragem de estréia, "O Guardião". Guarda-costas de um ministro de Estado, Ruben (Julio Chávez) fica na ante-sala das reuniões, do lado de fora das festas, no estacionamento dos prédios, na calçada dos apartamentos ou nos corredores das casas e hotéis freqüentados pelo homem que deve proteger. "Achei que abordar um personagem lateral, um homem sujeito à existência de outro seria interessante, até para descobrir como se filma essa história", afirma Moreno, 33. A descoberta rendeu ao diretor o prêmio Alfred Bauer no Festival de Berlim, habitualmente conferido a obras que conduzem "a arte do cinema para novas direções". No filme e no discurso, o diretor acentua que a dependência entre os dois personagens e a "panela de pressão" emocional que a natureza desse vínculo impõe ao guarda-costas era o único tema que lhe interessava. A circunstância política argentina, portanto, fica de fora. "Procurei afastar todo laço que a história pudesse ter com a realidade. Não me interessa fazer filmes sobre o que se lê nos jornais. Quero explorar uma problemática mais profunda", afirma. O fictício ministro Artemio (Osmar Nuñez) ocupa uma pasta também inexistente -a do "planeamiento" (planejamento), e não a da "planificación", oficial e poderosa na estrutura de governo argentina. "A idéia é que ele fosse um ministro de segunda linha, um burocrata, alguém sem paixão, anêmico." Autor também do roteiro, Moreno diz que procurou caracterizar o personagem do ministro "na contramão da imagem óbvia", que seria a de "alguém deliberadamente corrupto, deliberadamente ignorante e deliberadamente prepotente". Mas afirma que sua opinião sobre política fica clara no "discurso vazio" que é a constante do ministro. Para o protagonista, o diretor diz que precisava ter "um grande ator disposto a não atuar, a expressar-se com o mínimo". Escolheu Julio Chávez, veterano no teatro argentino e nome em alta no cinema desde que foi dirigido por Adrián Caetano em "Un Oso Rojo" (um urso vermelho, 2002). O "mínimo" de atuação de Chávez significa também que apenas um mínimo de informação sobre o personagem é oferecido ao espectador, ao menos diretamente. É preciso seguir os passos de Ruben no filme para perceber sua constante solidão, seu descenso profissional, o desastre de sua vida familiar e também sua obsessão pelas normas e pelo bom desempenho. Tudo isso para conduzir ao desfecho que Moreno define como sendo "a contradição" que foi, na verdade, seu ponto de partida para fazer o filme. Depois da boa acolhida na estréia, o diretor escreve um novo longa, "em torno de um personagem adolescente" e se prepara para dar um curso de direção em São Paulo, no ano que vem. Narrativa tensa mostra o vazio da políticaRuben (Julio Chávez), guarda-costas de um ministro, é praticamente um homem invisível. Seu papel, em grande medida, consiste em passar despercebido enquanto abre portas, espera em ante-salas e corredores, vigia os ambientes por onde passa ou passará seu chefe. A partir do ponto de vista desse ser descolorido, vemos não tanto a política argentina, mas os bastidores, as zonas mortas, os "entreatos" da atividade política, que se apresenta então como ritual desprovido de conteúdo. É por frestas de portas, por fragmentos de conversas telefônicas, que entrevemos um pouco desse impenetrável universo. Mas Ruben é um ser de carne e osso, com sua irmã problemática, sua sobrinha, seus rancores calados. Esse mundo interior em quieta ebulição vai sendo construído pelo espectador à medida que acompanha as tarefas do guardião. A tensão, que justificará o desenlace surpreendente, não se nutre dos golpes baixos do cinema convencional (música enfática, montagem paralela), mas do laconismo do personagem, da parcimônia com que nos é mostrada sua vida. Lição de rigor e precisão, a narrativa desse primeiro longa "solo" do argentino Rodrigo Moreno foi comparada, com algum exagero, ao cinema ascético do francês Robert Bresson. Não chega a tanto, mas justifica a esperança numa carreira das mais brilhantes. Por Silvana Arantes & José Geraldo Couto - Folha de São Paulo 21.10.06
SPOILER ESPECIAL: 30º Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
O mar hoje está para "Sonhos de Peixe" A paixão que a música brasileira é capaz de causar em ouvidos estrangeiros já rendeu histórias antológicas. Mas poucas se comparam à de Kirill Mikhanovsky. A paixão deste russo pela música de Caetano Veloso acabou em filme. Não, não se trata de um filme sobre o cantor baiano nem sobre a música do Brasil. O fascínio rendeu a Kirill uma viagem ao Brasil, que rendeu uma ida à Baía Formosa, no Rio Grande do Norte, que rendeu Sonhos de Peixe.
A paixão, aliás, começou também no cinema. 'Eu assistia a A Flor do Meu Segredo, do Almodóvar e, quando começou a tocar Tonada de la Luna Llena fiquei encantado. Fui procurar de quem era aquela voz incrível. Descobri que era o Caetano. Comecei a comprar e ler tudo sobre música brasileira', conta o diretor, por telefone, direto da cabine de seu avião em Moscou, que se preparava para decolar rumo a São Paulo, onde Sonhos de Peixe faz sua estréia no Brasil, na 30ª Mostra de Cinema de SP, às 21 horas, no Cinesesc. Mikhanovsky está ansioso. 'Já exibimos em vários festivais. Até em Cannes (onde recebeu o Prêmio do Olhar Jovem na Semana da Crítica), mas é no Brasil que a platéia será mais rigorosa. É claro que vão pensar: quem é esse russo que se mete a contar uma história tão brasileira?' A história, aliás, é a de Jusce (José Maria Alves), um jovem pescador de lagostas . Jusce ama Ana (Rúbia Rafaelle), que 'só quer, só quer' uma vida que só existe em O Beijo do Pecado, novela que ela não perde por nada. O único que consegue ter tanta atenção de Ana quanto a TV é Rogério (Phellipe Haagensen), amigo de Jusce que, tempos depois de sair para a 'cidade grande', volta para o vilarejo como bugueiro. Ana se divide entre os dois e exige cada vez mais de Jusce. Sem apelar para a estética de cartão-postal, Mikhanovsky filma a vida que passa pela janela. Como matrioskas (as bonequinhas russas), sua história de pescador esconde em si outras tramas. Em Sonhos de Peixe, os devaneios são de gente comum, que vive uma vida comum. Ou quase. Por isso, há quem diga que é longo demais. De fato é. Há quem diga que 'falta ator'. E falta. Mas na realidade o filme imprime à platéia o mesmo ritmo cotidiano das vidas daquele vilarejo. E todos em cena (com exceção de Haagensen e Chico Diaz, que vive também um pescador) são moradores de Baía Formosa. Foram literalmente recrutados nas ruas da cidade pela produtora brasileira (assim como toda equipe, com exceção do assistente de direção e do diretor de fotografia) Fernanda de Capua. Mikhanovsky tem o olhar raro de quem consegue pescar a verdadeira brasilidade não em 'macumba para inglês ver', mas no detalhe de uma família reunida em frente da TV, de uma pelada na praia. E quem é esse russo? Antes de se tornar cineasta, Mikhanovsky, que se divide entre a Rússia e os EUA, onde mora parte de sua família, estudou antropologia e lingüística. Foi na América, mais precisamente na New York University que conheceu Fernanda de Capua e Matias Mariani, brasileiros que estudavam cinema na universidade. 'Eu trabalhava na NYU e o Matias estava na graduação. E ficamos amigos do Kirill. Ele, que fazia pós-graduação, me contou que havia ido ao Brasil, e era apaixonado por música brasileira e que queria fazer a tese dele, que, no caso, era um filme, no Brasil. Achei ótimo, mas logo pensei que não passava de mera idéia', conta Fernanda. A idéia passou a ser projeto de um curta, que passou a ser projeto de um longa-metragem. E nós acabamos entrando como produtores', conta ela. Apesar de se passar no Brasil, ter atores brasileiros, ser falado em português, Sonhos de Peixe não contou com um centavo de verba nacional. Os US$ 325mil necessários para 'botar o filme na lata' foram bancados pela produtora americana Unison Films. 'As leis de incentivo só funcionam se o diretor for brasileiro. Chegamos a ter R$ 100 mil de incentivo do governo do Estado do Rio Grande do Norte, mas a burocracia e as comissões eram tão absurdas que resolvemos não usar a verba', conta Fernanda, que já sonha com outra produção em parceria com Mikhanovsky. Ele assina embaixo. 'Tenho algumas idéias. Quero muito voltar a filmar no Brasil.' Por Flávia Guerra - Estado de São Paulo |