Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

11.7.06

Johnny Depp, libertino ou libertário?


À espera de Piratas do Caribe 2, ele pode ser visto na pele do poeta John Wilmot



A duas semanas da estréia de Piratas do Caribe 2 - O Baú da Morte (no dia 21), você pode ver Johnny Depp em outro filme de época que estreou ontem. Não é bem uma aventura. O Libertino, de Laurence Dunmore, é obra intelectualmente mais ambiciosa, o que não significa que seja melhor. Logo na abertura, falando diretamente para o espectador, Depp diz que o público não vai gostar dele. Os homens vão invejá-lo, as mulheres vão sentir nojo.

Baseado num personagem que existiu de verdade, o poeta John Wilmot, segundo conde de Rochester, O Libertino conta a história desse homem consumido pela realização de seus desejos. Beberrão, conquistador inveterado, ele se interessa por uma jovem atriz, a quem decide transformar em estrela. E tudo isso ocorre no momento em que o próprio rei Charles II, que o banira, o chama de volta para Londres, a fim de atribuir-lhe uma função decisiva no Parlamento, em plena Restauração.

Talvez o grande problema de O Libertino seja mesmo a participação de Johnny Depp, ótimo ator, mas que não tem physique du rôle para o papel. Laurence Dunmore talvez quisesse justamente jogar com o estranhamento que produz a cândida figura de Eduardo Mãos-de-Tesoura brandindo todas aquelas obscenidades. Depp sai-se melhor como o pirata efeminado Jack Sparrow. Mas o filme passa, vagamente, a idéia de que libertino tem a mesma raiz de liberdade. Quando se luta por ela, não importa em que plano, se arrisca a pagar um preço, por isso.

Por Luiz Carlos Merten - (Estado de São Paulo)