Eli Roth apresenta seu terror político
"O Albergue" explora assassinatos cometidos por prazer de ricaços sádicos

Eli Roth esteve no Brasil há cerca de duas semanas para mostrar seu filme O Albergue, que estréia hoje. Ele adora Zé do Caixão. Adoraria ter-se encontrado com José Mojica Marins, mas não foi possível. Roth anda rindo à toa. O Albergue, que custou US$ 4 milhões, já rendeu mais de US$ 50 milhões apenas nos EUA. Os produtores lhe acenam com altos orçamentos para que ele faça O Albergue 2, 3... Ele já trabalha no 2, mas de preferência quer gastar ainda menos. "O público que vai ver esses filmes não quer saber de grandes orçamentos. A pobreza faz parte da atração que eles despertam sobre os espectadores. Eu mesmo me sinto melhor trabalhando com baixos orçamentos, que me obrigam a ser mais criativo."
Roth é protegido de Quentin Tarantino. Seu filme provoca um banho de sangue como raras vezes se viu na tela, mesmo nesta última safra de terror que anda particularmente sanguinolenta. A estréia, nesta Sexta-Feira Santa, deveria proporcionar material de reflexão para a cúpula da CNBB que, sem ter visto O Código Da Vinci, já anda exortando os fiéis para que não vejam o filme que Ron Howard adaptou do best seller de Dan Brown. Enquanto isso, num dia em que, não faz muito tempo, os cinemas só exibiam A Paixão de Cristo, o que entra hoje é esta fantasia sobre jovens americanos perdidos na Europa e confrontados com uma organização que cobra caro para que milionários possam exercer seu esporte favorito. Matar gente.
A forma de matar fica por conta de quem paga. Pauladas, serra elétrica, tiro, ácido, remoção de órgãos sem anestesia. Vale tudo. Roth disse que teve a idéia sinistra por causa da internet. Em países como a Tailândia, circulam na internet histórias sobre famílias que cobram US$ 10 mil para que você faça não importa o que com alguns de seus integrantes. Roth juntou a esse horror uma experiência pessoal. Ele próprio, anos atrás, foi a Paris como mochileiro e depois circulou pelo Leste Europeu, na fase da derrocada do comunismo. Encontrou um mundo devastado e sem valores. Juntando a internet e esse assustador mundo velho, ele fez O Albergue.
No original, chama-se Hostel e o som é o mesmo para a palavra hostil, em inglês. "Queria justamente explorar o duplo sentido", explica o diretor, que cita com grande orgulho o que lhe disse George A. Romero. "Seu filme é o terror mais político desde A Noite dos Mortos Vivos." Romero referia-se ao filme que ele próprio realizou em 1968, concentrando todos os problemas dos EUA assolados pela Guerra do Vietnã e pelos conflitos raciais, além de assassinatos políticos, na história do grupo que resiste às investidas de mortos vivos. Tudo faz sentido em O Albergue. Cada frase, cada imagem. Tudo foi cuidadosamente planejado por Roth. Crítico do presidente George W. Bush e do processo de globalização que avilta a pessoa humana e cria padrões de competitividade que anulam os excluídos, ele diz que o mundo nunca foi mais propício à realização de filmes de horror que na atualidade. "Há uma saturação da violência e uma indiferença pelo sofrimento alheio que tudo permite." Roth não sabe até que ponto as histórias da internet são verdadeiras. Espera que o consumo de seu filme não seja fácil. "Fiz O Albergue para provocar mal-estar", afirma.
Por Luiz Carlos Merten - (Estado de São Paulo)
posted by Marfil at 1:36 PM