Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

15.2.06

SPOILER ESPECIAL: Mundo Berlinale 2006

Oskar Roehler jura: não quis ofender o Brasil


"Partículas Elementares", do diretor alemão, tem frase que fala do País como lugar de traficantes e prostitutas aidéticas


Oskar Roehler jura que não quis ser ofensivo com o Brasil. O que ele diz sobre o País em Partículas Elementares está no livro de Michel Houllebecq em que ele se baseou. O filme, como o livro, trata de dois irmãos e suas atitudes em relação ao amor. Um é cientista e pesquisa formas artificiais de reprodução humana sem contato sexual. O outro é obcecado pelo intercurso, mas não dá muita sorte com as mulheres. A uma, que o troca por um sujeito que quer dançar o samba, ele diz que o Brasil é um lugar de traficantes e prostitutas (a palavra é mais dura) aidéticas. "Michel escreveu isso", justifica-se Roehler. Pessoalmente, ele diz que simpatiza com o Brasil e achou a definição romântica.

O filme está sendo muito discutido em Berlim. O próprio livro de Houllebecq, embora premiado, está longe de ser uma unanimidade e é muito contestado na França. Houllebecq é um crítico social intenso e um escritor poderoso, mas também é manipulador e pessimista. Roehler não leva esse pessimismo até o fim. O filme meio que faz um arranjo, à maneira de happy end. O repórter aproveita para perguntar - se ele mudou tanta coisa na adaptação, por que foi fiel justamente na observação preconceituosa sobre o Brasil? Ele acha graça e pede desculpas. O repórter pede que ponha as desculpas no próximo filme. A propósito, vai ser de novo sobre sexo, esse tema que obceca parte do novo cinema alemão? "Não, pretendo fazer algo diferente", diz Roehler. Um conto de fadas, o repórter insiste? "Sim, mas com cenas de sexo", o diretor retruca, e acrescenta. "Não confio em quem não gosta de sexo."

O tema tem estado presente em muitos filmes aqui na Berlinale. Após a mulher vítima de estupro no belo Grbavica, da cineasta da Bósnia Jasmila Zbanic, veio o estuprador de Free Willie, do alemão Matthias Glasner. O filme tem um ator excepcional, Jurgen Vogel, o melhor, até agora. A primeira parte de Free Willie é muito boa. O cara comete vários estupros, é preso e passa nove anos na cadeia. Solto, tenta recomeçar a vida, mas a adaptação é difícil. Ele pratica artes marciais. Luta contra um inimigo imaginário - na verdade, ele mesmo. O apelo erótico está em toda parte, em outdoors, na TV. Uma mulher passa pelo atormentado protagonista usando uma camiseta decotada, na qual está escrito Brasil. A primeira parte é realmente maravilhosa; a segunda (o filme tem três horas) vira filme de horror, de tão horrível, quando ele se envolve com uma mulher meio pirada, não tem estrutura para aceitar certas coisas que ela faz e volta aos estupros.

É exatamente o contrário de Invisible Waves, co-produção de Hong Kong, da Coréia e da Tailândia, com direção do tailandês Pen-Ek Ratanaruang. O filme é um noir. Conta a história desse homem que comete um assassinato e foge, ingressando num verdadeiro pesadelo. Começa pelo fim, quando ele aponta um revólver para um sujeito que a gente não vê. Ao cabo das suas desventuras no estrangeiro, o dublê de cozinheiro e assassino volta a Macao para se vingar do homem que o contratou para matar a mulher dele. O filme é muito interessante, mas a meia-hora final é maravilhosa, cheia de mistério e sutileza e com um pouco daquela poesia meio indecifrável de Doença Tropical, que tanto sucesso fez na mostra, há dois anos.

Por Luis Carlos Merten


12.2.06

SPOILER ESPECIAL: Mundo Berlinale 2006

Gerge Clooney denuncia corrupção dos senhores do petróleo no Festival de Berlim


Diretor Daniel Burman volta ao mito do pai em "Direito de Família"


Os filmes apresentados nesta sexta-feira (10/02) fora do concurso ou em seções paralelas despertaram maior interesse do que os que competiam na seção oficial. Tanto o americano "Syriana", de Stephen Gaghan, que contou em Berlim com a rutilante presença de George Clooney, quanto o hispano-argentino "Derecho de Familia", de Daniel Burman, apresentado na seção paralela Panorama Especial, chamaram a atenção dos cronistas com mais força que os dois fracos filmes da seção oficial. Surpresas de um festival que quer abranger demais.

Na rua principal do novo bairro onde se realiza o festival, há durante o dia uma multidão de corvos grasnando, que à noite se transformam em obscuros vigilantes das árvores nuas na calçada. A lembrança do filme de Hitchcock acentua o toque sinistro de sua imagem.

Pois o filme "Syriana" também fala de corvos, nesse caso realmente perigosos --ambiciosos homens de negócios com obscuros interesses políticos--, que deixam depois da projeção a insuportável inquietação de que vivemos em um mundo que não conhecemos realmente e de que nossos destinos são manipulados por corvos desconhecidos.

Mas "Syriana" tem um argumento tão intricado que provavelmente seu diretor e roteirista, Stephen Gaghan, não pretendeu que acompanhássemos seu fio, mas que nos deixássemos impregnar por uma sensação confusa sobre os emaranhados interesses comerciais e políticos que giram em torno do petróleo. Os chineses compram gás natural no golfo Pérsico, o enviam para o Casaquistão, de onde o vendem para os EUA através de uma empresa americana, que um poderoso lobby, naturalmente, quer absorver.

A complexa ação se desenrola simultaneamente em vários países e em episódios cuja brevidade não permite familiarizar-se facilmente com os personagens. Pouco a pouco, porém, o espectador vai compondo o quebra-cabeça, mas depois achará difícil resumir a trama. Ou se deixou levar pelo ritmo trepidante do filme ou talvez tenha abandonado a sala, o que costuma acontecer com demasiada freqüência nos festivais.

Mas o rebuscado mistério do enredo e a presença de bons atores prendem na poltrona: George Clooney como agente da CIA (atenção à seqüência em que lhe arrancam as unhas), Matt Damon como um especialista em energia, ambicioso e frio, William Hurt em breve aparição como único homem que parece entender tudo...

Candidato a dois prêmios Oscar, foi apresentado em Berlim fora de concurso. Como também foi, na seção Panorama, "Direito de Família", do argentino Daniel Burman, que há dois anos obteve merecidamente o Urso de Prata neste festival com "El Abrazo Partido".

No novo filme Burman retoma a imagem do pai como referência substancial (o título "O Abrazo Partido" se referia exatamente à separação entre um filho e seu pai), e conta novamente com o magnífico ator Daniel Hendler (também Urso de Prata em Berlim), que desta vez interpreta o jovem advogado Perelman, filho do advogado Perelman, com cuja maneira picaresca de trabalhar não concorda. O pai costuma fazer amizade com seus clientes, enquanto o filho nem os conhece.

Mas a longa sombra do pai se estenderá após sua morte, talvez até conseguir com o tempo que seu neto acabe sendo um novo advogado Perelman. Talvez ninguém consiga se desfazer das heranças e esteja destinado a pisar nas pegadas de outros, ou talvez o empenho seja exatamente o de apagar essas pegadas, o que vem a lhes dar a mesma transcendência.

Burman evidentemente se preocupa com o tema, e voltou a ele, embora com menos força que em seu esplêndido filme anterior. Conta sua história com naturalidade, sem carregar nas tintas, como se não desse importância ao que está acontecendo nele.

De fato, isso é censurável no filme, que carece de intensidade dramática, embora isso seja compensado pela boa atuação de todos os intérpretes, graças aos quais se acompanha com interesse a falta de uma trama de peso.

Não se pode dizer o mesmo dos filmes que foram apresentados no concurso. Tanto o austríaco "Slumming", de Michael Glawogger, como o dinamarquês "En Soap", de Pernille Fischer Christensen, são filmes velhos, embora assinados por diretores jovens, e pouco ajudaram a melhorar o nível da competição, inaugurada ontem com o melodrama "Snow Cake".

Em todos os festivais aparecem filmes menores, inclusive ruins, mas não deixa de ser frustrante que sejam exatamente os do concurso. Costuma ocorrer. O austríaco "Slumming" conta as peripécias de um belo rapaz que namora garotas para rir delas; marca encontros pela Internet e depois as abandona.

Fã de brincadeiras, realiza em companhia de seu companheiro de apartamento a mais cruel: seqüestrar um vagabundo bêbado e inconsciente e transportá-lo no porta-malas do carro para um povoado da República Checa, onde o deixam abandonado e sem documentos em um banco de rua semelhante àquele em que o encontraram em Viena. O vagabundo, que na realidade é um poeta decepcionado com a vida, desperta sem entender onde está nem por quê.

O dinamarquês "En Soap", por sua vez, encarrega-se de contar com uma incômoda câmera na mão a relação de vizinhos entre uma garota que abandonou o namorado e um rapaz que espera ser operado para se transformar em mulher e que é hipnotizado por novelas de TV. Como é previsível, estabelece-se entre eles uma conexão que vai além da amizade, embora não seja isenta de complicações. E de temas. Se nos conhecêssemos melhor, gostaríamos mais uns dos outros.

Por Diego Galán


9.2.06

SPOILER ESPECIAL: Mundo Berlinale 2006

O charme de Berlim


O mais politizado festival de cinema começa hoje na capital alemã com 19 filmes na disputa pelo Urso de Ouro e exibições que tornam esta uma edição especial


Começa hoje mais um Festival de Berlim, o de número 56. O privilégio de inaugurar o evento de 2006 ficará com o diretor canadense Marc Evans, cujo filme Snow Cake, em co-produção com a Grã-Bretanha, terá duas sessões, no Berlinale Palast e no Zoo Palast. Berlim é o primeiro dos grandes festivais europeus do ano.

Na primavera, em maio, Cannes realiza o maior show de cinema do mundo. No fim do verão, em setembro, quase sempre sob um calor insuportável, Veneza encerra o calendário dos grandes festivais. Em torno deles, gravitam eventos menores: a Holanda já fez o Festival de Roterdã e virão Locarno, Biarritz, San Sebastian, Deauville, Londres. Todos têm sua importância, mas os três maiores, que formam o grande circuito, são Berlim, Cannes e Veneza, separados entre si por três, quatro meses, invariavelmente.

Berlim possui um charme especial. Além do perfil acentuadamente político - na mostra competitiva e em seções paralelas, como o Panorama e o Fórum -, termina sendo menos mundano do que Cannes e Veneza pelo simples fato de que ocorre no inverno, sob frio e neve. Nesse quadro, não existe espaço para o glamour de tapetes vermelhos, com mulheres seminuas e miríades de champanhe, como na Croisette. Em Berlim, as pessoas andam agasalhadas e tomam muita água.

Uma das patrocinadoras do evento é uma grande fabricante de água e você encontra água de todos os sabores (até a natural, sem sabor!) nos espaços da Berlinale.

Potsdamer Platz, na linha onde antes passava o Muro de Berlim, vira hoje e permanece até o dia 19 a capital mundial do cinema. Mais para o meio do ano, Berlim vai tornar-se a capital mundial do futebol e a Alemanha vai sediar a Copa do Mundo da Fifa, evento muito mais midiatizado. Os alemães andam eufóricos com toda essa exposição. Dieter Kosslick, diretor-geral da Berlinale, já anunciou que se orgulha particularmente da seleção de 2006.

Ela privilegia alguns veteranos importantes, tipo Robert Altman, Sidney Lumet e Claude Chabrol, mas abre espaço preferencialmente para os novos talentos. Numa categoria intermediária situam-se autores já conhecidos e premiados, mas com currículo mais recente, como Jafar Panahi e Michael Winterbottom. Para alegrar a mídia, Berlim pega carona no circo do Oscar e apresenta, em exibições especiais, fora de concurso, alguns dos principais indicados para o prêmio da Academia de Hollywood.

Vão concorrer 19 filmes ao Urso de Ouro (veja o quadro). Representam EUA, Alemanha, Austrália, Dinamarca, Suécia, Croácia, Tailândia, China, Irã, Canadá, Itália e França. O único representante latino-americano é El Custódio, de Rodrigo Moreno, co-produção anglo-argentino-espanhola. Mais sete serão exibidos fora de concurso.

É o grupo que abriga os indicados para o Oscar - Capote e Syriana, dos estreantes Bennett Miller e Stephen Gaghan, e O Novo Mundo, de Terence Mallick. Dois longas brasileiros integram o Panorama - a ficção Casa de Areia, de Andrucha Waddington, com Fernanda Torres e Fernanda Montenegro, uma top star na Berlinale, desde que ganhou o prêmio de interpretação por Central do Brasil, em 1998; e o documentário As Meninas, de Sandra Werneck, sobre adolescentes grávidas.

Há também outro longa no Fórum, em co-produção anglobrasileira - Atos dos Homens,de Kiko Goifman. O único brasileiro que compete na Berlinale é o curta Berlin Ball, de Ana Azevedo, sobre garotos de Campina Grande que sonham jogar futebol na Alemanha. O filme concorre ao Troday Award.

Como é no Panorama e no Fórum que são projetados, em geral, os filmes mais audaciosos e experimentais, há grande expectativa pelo que essas seções vão exibir. O Fórum de 2006 traz cerca de 40 títulos, sendo 21 estréias mundiais e 15 trabalhos de estreantes.

Alguns filmes se destacam antecipadamente - Chantal Ackerman criou uma espécie de diário sobre o Oriente Médio, a partir de Tel-Aviv, em Là-Bas.

Seu filme pode fornecer um contraponto interessante a News from Home, de Amos Gitai, que também está no Fórum. Berlim premiou, no ano passado, um grande filme sobre o Oriente Médio - Paradise Now, do palestino Hani Abu-Assad, que concorre ao Oscar e está em exibição em São Paulo com outros dois filmes de temática aparentada - Munique, de Steven Spielberg, e Free Zone, também de Amos Gitai.

É o típico assunto que está sempre em pauta, pelas implicações políticas que possui.

Ainda no Fórum, Laura Poitras dá seu testemunho sobre as eleições parlamentares no Iraque em My Country, My Country; Alain Berliner, de Minha Vida Cor-de-Rosa, discute a própria insônia no autobiográfico Wide Awake;e Strange Circus, do japonês Siono Sion, promete ser o mais bizarro thriller psicológico do ano.

O Panorama traz outros 40 filmes, entre curtas e longos, de vários países, incluindo os participantes brasileiros e o novo trabalho do argentino Daniel Burman (Derecho de Familia).

Faz parte da tradição de Berlim distribuir dois Ursos de Ouro especiais para artistas de importância reconhecida. Este ano, os prêmios vão para o diretor polonês Andrzej Wajda, que já recebeu um Oscar de carreira, e o ator sir Ian McKellen.

Outro prêmio especial será atribuído ao grande diretor de fotografia Michael Baulhaus, um alemão que começou trabalhando com Rainer Werner Fassbinder e, depois, foi para Hollywood colaborar com Martin Scorsese.

Baulhaus é responsável, entre outras imagens, pelo alucinante plano-seqüência que abre Os Bons Companheiros, tão impressionante que a cena poderia ser a súmula da carreira hoje um tanto ziguezagueante de Scorsese.

Outra atração da Berlinale será a special edition de Pat Garrett e Billy the Kid, que vai mostrar, restaurado, o excepcional western de Sam Peckinpah com Kris Kristofferson e James Coburn, que havia sido remontado criminosamente pelos produtores, no começo dos anos 1970.

No fim dos 80, Pat Garrett saiu em vídeo com 16 minutos a mais do que a versão exibida nos cinemas (103 min), mas agora o que Berlim vai ver é a íntegra do western de Peckinpah, com quase duas horas e meia da balada sombria que revisa os mitos e códigos do gênero pelo qual o cineasta era obcecado.

Por que revisar assim Peckinpah e o seu Pat Garrett? Porque o que está em discussão é a eterna tragédia da sociedade americana, que só consegue resolver seus conflitos por meio da violência, como ensinam Peckinpah, Arthur Penn e outros grandes diretores.

Tudo isso e mais o festival infantil (o Kinderfestival), os filmes gays e lésbicos (que concorrem ao Teddy Bear), os tesouros da cinemateca alemã e o Talent Campus, que reúne estudantes de cinema de todo mundo em encontros com grandes diretores.

Apesar do frio, a Berlinale promete ferver, a partir de hoje.

Por Luiz Carlos Merten