Há vários motivos para assistir um filme: pelo espetáculo, pelo riso, pela arte. E então há pessoas. Não pessoas que vão assistir aos filmes, mas as do próprio filme! Os personagens conjurados pelo ator que interpreta palavras do escritor, guiadas pelo diretor, através da celulóide do fotográfo, projetado na tela por um feixe de luz. Assim muitos nos convencem à acreditar de fato nessas pessoas tanto quanto nós acreditamos em...bem, essa é a magia! Isso é SPOILER! Isso é cinema!

27.5.05

Aventura desencava "Indiana Jones", mas regride no gênero


O s filmes de aventura modernos, como prova "Sahara", têm uma queda pela arqueologia. Neles, chega-se a lugares exóticos para explorar vestígios. Artefatos perdidos. Em "Sahara", aventureiros americanos vão atrás de um navio da Guerra Civil dos EUA oculto na África.

Será uma jornada de eventos improváveis, caros à confecção desse cinema que flerta sempre com a fantasia. É uma tendência realçada na câmera, conduzida pelo diretor Breck Eisner para dar um traço meio de gibi às paisagens e ao movimento de corpos e máquinas. Na jornada também não faltará carinho por sombrios registros históricos, obsessão arqueológica dos personagens.

No entanto, a arqueologia tem com o filme laço mais radical: está em seus genes. "Sahara" ratifica que as aventuras modernas são parques arqueológicos do próprio cinema. São desenterrados cinemas perdidos, como o de piratas, o western ou mesmo aventuras mais velhas, e esses são os materiais decompostos que constroem a aventura hoje. Diretores manuseiam e fundem esses "fósseis", e surgem peças novas de cinema. Atualizadas e mestiças.

Em "Sahara", o western, por exemplo, é replantado em uma geografia solar e miserável africana: espaço que, íntimo de certo imaginário faroeste, abrigará trens velozes e lanchas filmadas como cavalos. Eisner também desencava "Indiana Jones" e faz de "Sahara" versão mais lúdica, com mais voltagem e uma textura 2005 do sucesso dos anos 80.

Nesse jogo arqueológico, o filme vê a África como canteiro das "histórias" americanas. A história de fato, no esqueleto náutico que lá repousa, e a audiovisual, lá atualizada e "depositada" por Eisner, que se beneficia até de uma trilha de rock americano "roots". A idéia de canteiro histórico reverbera, porém, quando um governo tirano é dissolvido pelos aventureiros, equipados com aparatos bélicos americanos. Com isso, o espírito democrático é semeado, em ação que pode ser lida na via do Iraque recente. Que se leve na esportiva: propaganda é chave desse tipo de cinema -tão americano- desde os primórdios. Como tudo no filme, é questão de evocação histórica.

Aliás, esse cinema fala acima de tudo sobre a nossa vontade de viajar. Nisso ele vai bem e alcança em suas cenas uma atmosfera de diversão. Mas, se há planos que valorizam significações do "cenário" africano, outros parecem só simular impacto: denunciam uma aventura que, no fundo, apesar da estrutura esperta, sofre de falta de intensidade. Nessas escavações, o gênero regrediu.

Por Claudio Szynkier


18.5.05

O fim do império


Estréia em cerca de 400 salas do País o último e mais político episódio da série Star Wars, A Vingança dos Sith, que se revela uma metáfora à era Bush



Star Wars é o que se chama de work in progress


Por Luiz Carlos Merten - Estado de São Paulo

É hoje - depois de uma espera de quase 30 anos, os mais afoitos não precisarão esperar até amanhã e, à meia-noite, já poderão assistir ao episódio que falta para completar a saga de Star Wars. Le lien manquant, o elo que falta - proclamaram jornais e revistas da França, onde Star Wars Episódio 3 - A Vingança dos Sith provocou verdadeira sensação ao passar, no domingo à noite, no 58.º Festival de Cannes. A mise-en-scène começou fora do palais. Ao longo de toda a escadaria que dá acesso ao Grand Théâtre Lumière, foram dispostas duplas de guerreiros com a armadura branca do império.

Formavam um corredor polonês por onde passavam os convidados. Uma orquestra inteira, disposta na lateral, fornecia a trilha sonora, executando os temas sinfônicos de John Williams. E, para completar, os atores e o diretor - Hayden Christensen, Natalie Portman, Samuel L. Jackson e George Lucas - deixaram sua formação para apertar as mãos das pessoas que, diante do palais, esperam o dia inteiro para ver as celebridades. Foi um delírio como raras vezes (nunca?) se viu em Cannes.

A partir de hoje, cerca de 400 salas de todo o Brasil passam a exibir A Vingança dos Sith. É um exagero, a prova da dominação que Hollywood exerce sobre o mercado brasileiro, etc. Mas a verdade é que se trata de uma demanda do público. A rede Cinemark vendeu, só na cidade de São Paulo, cerca de 4 mil ingressos para a pré-estréia do filme, e as entradas para todas as suas sessões estão esgotadas. Já a Moviecom tem 80% de suas salas ocupadas. Estimulado pela publicidade (ou não), o espectador que, desde 1977, acompanha a saga estelar de Lucas não vai querer perder o momento culminante de toda a série - a transformação de Annakin Skywalker no vilão.

Lucas deu uma entrevista concorridíssima. Lembrou que começou a escrever Star Wars em 1971, em plena Guerra do Vietnã. Três anos mais tarde, recebeu o aval da Fox e começou a preparar o que seria o primeiro filme, lançado, na época, como Guerra nas Estrelas e rebatizado como Star Wars Episódio 4 - Uma Nova Esperança. A trilogia anterior teve consultoria do mitólogo Joseph Campbell e mostrava a construção do herói, Lukas Skywalker. A de agora, que, na cronologia do filme completo, vira a primeira, mostra o oposto - a criação do vilão, por meio da transformação de Annakin Skywalker, o pai de Luke, em Darth Vader.

Este terceiro episódio é bem melhor do que os dois anteriores (A Ameaça Fantasma e A Guerra dos Clones), mas os críticos, em geral, preferem os filmes antigos. Lucas tem uma explicação - "Só me dei conta há um ano. O público que era adolescente ao ver Star Wars está hoje na faixa dos 40 anos e ocupa os postos de comando em jornais, na televisão. Na internet, descobri que os jovens que hoje vêem Star Wars preferem os filmes recentes. Temos assim dois públicos na série - o dos espectadores com menos de 25 anos e os de mais de 40. Quero ver daqui a dez anos como será a resposta do público que agora é jovem."

Ele conta que estudou história e política para dar sustentação à trama de A Vingança dos Sith, que é a transformação da República em Império. Por uma estranha coincidência, o filme chega aos cinemas em plena era de George W. Bush. Timing mais perfeito, nem se Lucas tivesse bola de cristal. Ele concorda que é o filme mais político da série e que tem tudo a ver com o novo império americano, mas diz que não pensava em Bush nem no Iraque. Nem poderia. "Quando escrevi Star Wars, a metáfora era sobre a Guerra do Vietnã." Para ele, os seis filmes formam apenas um. "A história se acaba aqui. Era o que queria contar. Quando comecei a desenvolver o projeto, vi que um filme não seria suficiente. Fiz uma trilogia e outra porque a inicial não dava conta de toda a série. Mas acabou."

Há dois diálogos primorosos neste novo episódio. No primeiro, Annakin e Padmé falam sobre a beleza dela e o papo vira uma discussão sobre a cegueira produzida pelo amor. O que Annakin vai fazer, aderindo ao lado escuro da Força, é por amor. Edipiano, o jovem amarga a perda da mãe e agora não quer perder a amada. Tenta impedir, por todos os meios, que ela morra de parto, ao dar à luz Luke e sua irmã gêmea, Leia. Age cego de amor. No outro diálogo, o general Palpatino é aclamado no Congresso. Ele repete uma frase famosa de Ronald Reagan, o mentor de George W. Bush - 'It's morning in America', que vira "É manhã na República", o início da ditadura do Império. Ouvindo-o, Padmé faz uma reflexão - "Então é assim que a liberdade é assassinada. Sob aplausos."

Lucas foi um visionário do cinema, que ajudou a criar, para o bem e para o mal, a nova estética de Hollywood, baseada nos efeitos especiais. Mas seu visionarismo maior foi o político. Como o jovem Lucas pôde perceber, em plena Guerra do Vietnã, que o alvorecer dos EUA seria essa transformação da República em Império global? Star Wars é o que se chama de work in progress. Lucas está sempre aprimorando seu filme. Um admirador, Bill Krohn, em Cahiers du Cinéma, espera que, em 2012, quando o diretor, amparado nas novas tecnologias, provavelmente estará lançando a versão 3D da saga, o espectador que vibra com Luke Skywalker e seus amigos possa estar comemorando a retomada da República, na era pós-Bush.

Mais ágil, sombrio e violento, novo "Star Wars" radicaliza efeitos


Por Guilherme Gorgulho - Folha On-line

Quase 30 anos após "Guerra nas Estrelas" arrasar as bilheterias de todo o mundo e arrebanhar milhões de fãs, chega às telas nos primeiros minutos desta quinta-feira (19) a última parte da saga criada por George Lucas. "Star Wars: Episódio 3 - A Vingança dos Sith" é o elo que faltava para unir as duas partes da saga intergaláctica de seis episódios.

A história da transformação do promissor cavaleiro jedi Anakin Skywalker no malévolo Darth Vader é de longe o melhor dos filmes da trilogia iniciada por "A Ameaça Fantasma" (1999), tanto pelos efeitos especiais, quanto pelo enredo.

"Star Wars" é um destes "blockbusters" que mostram o que Hollywood é capaz de fazer com tantos milhões de dólares e tanta tecnologia. Nas tradicionais cenas de batalhas estelares, os efeitos especiais são espetaculares. Para criar os fantásticos planetas da distante galáxia de Lucas, foram utilizados mais de 70 cenários, combinados com as tecnologias da Industrial Light & Magic.

A comparação entre as duas trilogias é inevitável. Mas, se os três primeiros filmes --lançados nas décadas de 1970 e 1980-- perdem em recursos técnicos, eles ganham com folga da segunda trilogia no que diz respeito à condução da trama e ao carisma dos personagens.

O novo longa de Lucas conserta alguns deslizes dos dois primeiros episódios de "Star Wars", acelerando o ritmo e excluindo algumas figuras bem sem graça, como o atrapalhado Jar Jar Binks ou apático vilão Darth Maul.

"A Vingança dos Sith" conta com participações maiores de figuras marcantes da saga. O pequeno mestre Yoda destaca-se nas cenas de combates com seu sabre de luz e sua presença de espírito de sábio jedi. Também a inseparável dupla C3PO e R2D2 aparece bastante e dá o tom certo nas cenas mais engraçadas. Além disso, os fãs também podem ver o wookie Chewbacca, que teve papel importante na primeira trilogia ao lado do mercenário Han Solo, em uma pequena participação.

O casal Hayden Christensen (Anakin) e Natalie Portman (Padmé Amidala) tem uma certa química que faz as cenas funcionarem, apesar de suas interpretações individuais serem apenas satisfatórias. Christensen se esforça para deixar exteriorizar toda a vilania que o personagem pede, mas as vezes é difícil enxergar nele a personificação do mal que Darth Vader representa.

O terceiro episódio é o mais sombrio e violento de todos. Repleto de ação, "A Vingança dos Sith" conduz o espectador pela metamorfose do guerreiro Anakin, que se alia ao Lado Negro da Força em busca de mais poder, garantindo 140 minutos de entretenimento.

"Guerra nas Estrelas" chega ao fim com episódio sombrio


Por Alcino Leite Neto - Folha de São Paulo

Quando se vai escrever sobre "A Vingança dos Sith", de George Lucas, é preciso ter em mente o significado de "Guerra nas Estrelas" para a história do cinema. Faz muito tempo que tudo começou, e talvez seja bom relembrar o impacto provocado pelo primeiro filme, em 1977.

Naquela época, o cinema hollywoodiano caminhava no marasmo e perdia paulatinamente importância nos mercados internacionais. Com o sucesso extraordinário de "Guerra nas Estrelas", Lucas revolucionou a produção norte-americana, revigorando-a. Ele introduziu os filmes no universo dos efeitos visuais complexos e do marketing global e agressivo. Graças a ele (e a Steven Spielberg, não esqueçamos), Hollywood reconquistou a hegemonia.

Até 1977, Lucas tinha realizado apenas dois longas: o formalista "THX 1138" (1970) e o nostálgico "American Graffiti" (1973). Sua carreira não começou em Hollywood, mas na USC Escola de Cinema e Televisão, na Califórnia.

No Festival de Cannes, onde ocorreu a estréia mundial de "A Vingança dos Sith", ele contou que pretendia fazer filmes experimentais e não tinha interesse por dramas. "Eu estava interessado em filmes não-narrativos e sem personagens, em situações puramente cinemáticas. Foi meu mentor, Francis Ford Coppola, que me convenceu a enveredar pelo cinema dramático", disse.

Esse gosto pela exploração formalista da imagem do cinema comparece em "THX" e não será esquecido em "Guerra nas Estrelas". Isso explica por que Lucas -este cinéfilo afiado, levemente misantropo, de imaginário um tanto adolescente- é melhor diretor de foguetes, luzes e robôs do que é de atores. As situações puramente cinematográficas e visuais tendem a interessá-lo mais do que a teatralização. O que não o impediu de transformar "Guerra nas Estrelas" na maior mitologia da indústria de entretenimento.

"A Vingança dos Sith" leva ao ápice a elaboração visual da saga, com efeitos impressionantes. Mas é também o mais sombrio e dramático de toda a série, pois o que interessa a Lucas, agora, é expor o dilema moral de Anakin Skywalker (Hayden Christensen) e revelar como "Guerra nas Estrelas" é uma longa tragédia de parricídio.

O novo filme conta como Anakin, jovem e promissor cavaleiro jedi, troca de lado e se alinha com aqueles que eram os seus inimigos, os Sith. Na mitologia da saga, significa que ele passou do lado do bem para o do mal -transformando-se em Darth Vader. Ao mesmo tempo o filme descreve um golpe de Estado, em que a república dos jedi é destruída e é implantado o império dos Sith.

O filme mostra ainda o nascimento dos filhos de Anakin, Luke e Leia, que serão criados longe do pai, por cavaleiros jedi. No futuro da saga, Luke, em nome do bem, enfrentará e destruirá Vader, sem saber que é seu filho.

"A Vingança dos Sith" começa com uma cena de batalha memorável e termina com Anakin recebendo a máscara negra de Darth Vader. Ou seja, não termina num "happy end", mas num impasse, com a vitória do mal. É útil lembrar que o final feliz da saga "Star Wars" não está no filme presente nem estará num filme futuro, mas ficou lá atrás, no velho filme de 1983.

"Darth Vader tira a máscara no último lançamento de "Star Wars"


Por Lluís Bonet Mojica - La Vanguardian

Finalmente sabemos que Anakin Skywalker (Haydeen Christensen) caiu no Lado Escuro, reencarnando como o malvado Darth Vader para evitar a morte do filho (foram dois: Luke e Leia) que sua mulher, a rainha Amidala (Natalie Portman), esperava, o que o leva a enfrentar seu preceptor Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor).

Portman, certamente, reaparecerá nesta quinta-feira (19/05) como a filha de Carmen Maura em "Free Zone", do israelense Amos Gitai.

Foi a primeira projeção digital em alta definição realizada neste Festival de Cannes. Em lugar da bobina de filme tradicional, que pesa cerca de 30 quilos, um disco rígido de apenas 300 gramas, guardado por vários agentes de segurança (para evitar duplicações ilegais e uma chegada prematura ao sucesso), foi depositado na cabine para a primeira projeção à imprensa.

A imensa tela e o extraordinário som do Grand Théâtre Lumière transformaram a pré-estréia européia de "Guerra nas Estrelas: Episódio 3 - A Vingança dos Sith", que chega aos cinemas na próxima quinta-feira, em um verdadeiro prazer visual.

Como é sabido, o Festival de Cannes costuma pactuar com o inimigo americano e servir de plataforma de lançamento para uma superprodução. Sempre há alguma justificativa cultural.

No caso de "Guerra nas Estrelas", serviram os antecedentes de cineasta independente de George Lucas --que deu os primeiros passos profissionais pelas mãos de Francis Ford Coppola, e em 1973 filmou o emblemático "American Grafitti" --, que no sábado completou 61 anos e exibia uma barriga proeminente quando compareceu à entrevista coletiva.

Sexta e ao que parece última prestação da milionária série galáctica, "A Vingança dos Sith", que custou US$ 115 milhões (nada perto do que vai faturar), volta às origens e explica tudo. Mas se o leitor quiser rever de uma vez os cinco filmes anteriores, em vídeo ou DVD, cabe advertir-lhe de que deverá gastar ao todo 801 minutos (sem contar os extras, acréscimos ou alguma visita ao banheiro).

Na projeção matutina para a imprensa da sexta etapa (em duas trilogias) de "Guerra nas Estrelas", a sala parecia habitada não por cronistas cinematográficos, mas por fãs aos quais a Força acompanhava e que proferiam sonoros uivos. Algo que se repetiu 140 minutos depois, que é quanto dura "A Vingança dos Sith", durante os créditos finais.

O fato de colocar no final os nomes dos intérpretes principais representou para Lucas uma multa de US$ 250 mil (uma ninharia para ele) imposta pelo sindicato de atores.

Em sua suposta despedida da saga, Lucas confeccionou a mais obscura e adulta de suas etapas, utilizando um ritmo cinematográfico notável, apesar de alguns efeitos especiais previsíveis em batalhas e duelos digitais.

O cineasta parece culminar uma série iniciada em 1977 com "Guerra nas Estrelas", quando teve de aceitar uma redução de seu salário na Fox, embora conservando uma porcentagem dos lucros, para que o deixassem controlar toda a realização e a montagem do filme.

Depois vieram "O Império Contra-Ataca", "O Retorno do Jedi" e uma segunda trilogia que explica o tempo anterior à primeira: "A Ameaça Fantasma", "O Ataque dos Clones" e agora os "Sith".
"Espero que o filme desperte os EUA"

Cannes estreou na segunda-feira (16) a última prestação da série "Guerra nas Estrelas". Os que pensavam que se tratasse de uma história simples de pura ficção-científica estavam enganados.

"Ela gira em torno do tema de saber como se pode passar de uma democracia para uma ditadura", disse seu criador máximo, George Lucas, indicando que construiu a história a partir de fatos históricos, sem imaginar que poderiam voltar a ter paralelos com o presente.

"Quando escrevi a série, o Iraque não existia", disse, brincando. "Então os Estados Unidos estavam financiando Saddam Hussein e dando-lhe armas de destruição em massa. Não pensávamos nele como um inimigo. Éramos contra o Irã e o utilizávamos como substituto, como fizemos no Vietnã... Os paralelos entre o que fizemos no Vietnã e o que fazemos no Iraque agora são incríveis."

Na década de 70, no início da série, "estávamos em plena guerra do Vietnã, e então a questão era saber como uma democracia pode se entregar a um ditador e então se perder. Estudei muito o período do Império Romano, por que depois de assassinar César o Senado deu o poder a seu sobrinho, por que depois de derrubar o rei a França acabou governada por Napoleão... É a mesma coisa que na Alemanha com Hitler", explicou.

"Você vê esse tema recorrente, como uma democracia pode se transformar em ditadura, como uma pessoa boa pode se tornar má. Sempre parece surgir do mesmo modo, com os mesmos temas e com ameaças externas, necessitando de maior controle. Um corpo democrático, um Senado, não é capaz de funcionar bem porque todo mundo se disputa e há corrupção."

E sempre há "ameaças externas, inclusive nos Estados Unidos", lembrou George Lucas, sem mencionar explicitamente Bush. "Espero que isso não aconteça em nosso país. Espero que o filme possa despertar a população dos Estados Unidos, especialmente diante das ameaças à nossa democracia", sorriu o diretor.

Mas além de "Guerra nas Estrelas" também há cinema inteligente. Na sessão oficial em concurso havia grande expectativa prevendo uma ou outra dose de escândalo diante de "Batalha no Céu", segunda obra do mexicano Carlos Reygadas, cuja estréia com "Japão" (apresentada no festival há três anos, na seção Quinzena dos Realizadores) já indicava o nascimento de um cineasta promissor.

Mas esta outra "Batalha no Céu" limitou-se a sobrevoar. O filme, que começa literalmente com uma felação, fica um pouco rasante, embora não se possa negar seu arrojo estilístico e temático.

Transitada por dois intérpretes não gordos, mas enormes, integrantes de um casal cuja esposa participou do seqüestro de um bebê que morre tragicamente e o marido não consegue superar o sentimento de culpa.

É o motorista de um general do exército cuja principal missão consiste em acompanhar a filha do militar, uma jovem frívola que se prostitui por simples prazer.

A história termina com a peregrinação do casal e da polícia ao famoso mosteiro da Virgem de Guadalupe, que tem seqüências filmadas com brilhantismo. Mas nota-se no mexicano Reygadas um afã excessivo para ser supostamente subversivo e escandalizar o espectador.




Star Wars - Espera, decepção e entusiasmo


Depois do sucesso evidente, tudo parece muito simples.

Hoje, ninguém duvida de que o público se interessaria numa história com um jovem herói, um vilão perfeitamente malvado, duelos de espadas e uma princesa; ainda mais se a trama fosse contada em ritmo de lenda, com toques de ficção científica, situando a ação numa galáxia distante repleta de naves super-rápidas capazes de manobras radicais e espadas-laser de nome maneiro: sabre de luz. Todavia, no início, esta era a receita de um filme muito estranho, que provavelmente nem pagaria suas despesas. Por esta razão, a Universal bateu a porta na cara de George Lucas. E a United Artists também, mesmo sendo ele o diretor de American graffiti. A luz no fim do túnel veio na forma de Alan Ladd Jr, executivo da Twenty Century Fox que aceitou a idéia, e deu a Lucas quinze mil dólares para desenvolver seu roteiro.

O primeiro esboço de Star wars levou nove meses para ser escrito. Tinha quarenta páginas e chamava-se Journal of the Whils, sobre "Mace Windy, um respeitado Jedi Bendu de Ophuchi", uma aventura narrada por C. J. Thorpe, aprendiz padawaan do famoso Jedi. O ano era 1973.

A lista de personagens incluía o General Luke Skywalker, dois trabalhadores chamados C-3PO e R2-D2, que não eram robôs, o General Vader, Han Solo, o príncipe wookie Chewbacca, um e o mercador Bail Antilles. Havia também uma lista de planetas: Yavin, um mundo-floresta, Ophuchi, coberto de nuvens, Alderaan, um globo revestido por uma cidade e Aquilae, um deserto.

Normalmente, o trabalho de criação levaria menos tempo, mas o sucesso de American graffiti exigiu a presença de Lucas em entrevistas e eventos, o que atrasou o processo. O maior obstáculo, no entanto, era a própria história. O autor queria colocar, em um só roteiro, o que acabou se transformando em toda a Trilogia Star wars original - Uma nova esperança, O império contra ataca e O retorno de jedi - espremida em duas horas. Certo de que seria impossível fazer isso, ele retalhou sua trama e trabalhou por mais seis meses.

A segunda e a terceira versão começavam com uma frase de grande efeito: "Em tempos de grande desespero, virá um salvador e ele será conhecido como o Filho do Sol". Só na quarta versão surgiu o "Era uma vez, numa galáxia distante..." que Lucas escolheu para deixar bem claro que tudo acontecia num universo inventado e não mais no século trinta e três, como havia cogitado originalmente. Daí em diante, tudo era possível e nada mais tinha ligação com a realidade.

A seqüência de abertura no primeiro esboço também foi diferente. Em vez da fragata rebelde fugindo do cruzador imperial, a história começava com Annikin Starkiller observando uma nave em torno da lua onde ele e o irmão se escondiam dos Cavaleiros de Sith, acompanhados de seu pai, Kane, um dos últimos Jedi. A cena acabou voltando nas versões em livro e em quadrinhos, agora com Luke em Tatooine observando a nave de Leia sendo atacada.

Pronto o roteiro, no final de 1974, a pré-produção teve início em 1975 e o resto da história foi engavetado.

O orçamento original era de 3,5 milhões de dólares. Inflação somada, o valor atingiu 9,5 milhões, estourados em mais três milhões pelo custo dos efeitos especiais.

Os atores foram escolhidos em grupos. Carrie Fisher recebeu ordens de emagrecer cinco quilos, Mark Hamill foi fazer uma audição para Carrie - a estranha e achou que o homem de barba ao lado de Brian de Palma era o assistente do diretor. Acabou numa audição com Harrison Ford, o ator que ele pensou que seria o protagonista.

O roteiro a essa altura já se chamava The adventures of Luke Skywalker as taken from the journal of the Whills: Saga one: The star wars. Com um orçamento reduzido, todos receberiam muito pouco. A justiça foi feita após o sucesso, quando Lucas distribuiu porcentagens dos lucros aos atores principais.

O toque final - se é possível falar assim de uma história que o autor e diretor tanto alterou e promete continuar alterando com novas inserções digitais - veio com a música de John Williams. Indicado por Steven Spielberg, Williams recebeu a incumbência de criar uma música não-eletrônica para naves espaciais, sabres de luz e robôs. Deu ao público um dos temas mais reconhecidos da história do cinema.

Houve pouca publicidade em maio de 1977. Na quarta-feira da estréia, Lucas estava verificando o som das versões estrangeiras de Star wars quando saiu para almoçar num lugar perto do Chinese Theater. Lá, uma faixa da avenida estava interditada, as filas rodavam o quarteirão e a polícia tentava organizar alguma coisa. Só quando olhou para o letreiro, descobriu que ele era o culpado pela confusão. O público ainda nem suspeitava que o resto da epopéia esperava sua vez para ser produzido. Nada mal para alguém a quem Coppola pedira para desistir do projeto e dirigir Apocalypse now.

Três anos depois, a história já era diferente. Com um sucesso nas mãos, Lucas filmou uma cena do pântano de Dagobah na piscina inacabada de sua casa, embora não fosse o diretor de O império contra ataca. Em 1983, Harrison Ford pediu a ele que matasse Han Solo em O Retorno de Jedi, uma vez que ele não ficaria com a garota, nem tinha mãe ou pai, o que prova que, como roteirista, Ford é um grande ator. A trilogia estava concluída e a epopéia chegara ao fim. O começo, porém, ainda aguardava sua vez de ser produzido.

Ao todo, foram dezesseis anos de espera por um filme inédito de Star Wars. O martírio começou em 1983, quando o capítulo final - O retorno de jedi - chegou às telonas, e durou até 1999, ano em que o Episódio I estreou.

Claro que, em momentos deste longo período, houve também um breve alívio: a trilogia original voltou às telas em versão remasterizada e com cenas inéditas. O público, no entanto, queria mais... e a espera foi longa, suficientemente longa para que se criassem expectativas, expectativas essas, quando frustradas, cristalizaram-se no ódio a Jar Jar Binks, ao ator mirim Jake Lloyd e, por vezes, ao próprio George Lucas. É como se o filme fosse um jantar muito esperado que, para alguns, transformou-se numa refeição de alface com pouco sal e água de sobremesa.

Para tirar o gosto ruim da parca refeição, só mesmo o Episódio II. Infinitamente melhor do que a Ameaça fantasma, favorecido pelo fato de não precisar apresentar personagens, partindo de uma situação já estabelecida que permite ir logo ao que interessa, O ataque dos clones dá o tom para a destruição de Episódio III, considerado o melhor da nova trilogia. Mas não se perca. A história é assim:

Episódio I
A Ameaça Fantasma



A República Galáctica entra em decadência. Numa disputa pelas rotas comerciais, a Federação do Comércio bloqueia o planeta Naboo. Protegida pelo Mestre Jedi Qui-Gon Jinn e seu aprendiz, Obi-Wan Kenobi, a Rainha Amidala deixa o planeta para pedir ajuda ao Senado Galáctico. No caminho, a nave é obrigada a pousar em Tatooine, onde os Jedi conhecem o garoto Anakin Skywalker, um escravo. Qui-Gon consegue libertar Anakin e levá-lo ao Conselho Jedi para ser testado, argumentando que ele é a pessoa que, segundo as profecias, trará equilíbrio à Força. Na batalha que se segue entre Naboo e a Federação, Qui-Gon é morto por Darth Maul. Obi-Wan, agora um Cavaleiro Jedi, passa a treinar Anakin.

Episódio II
O Ataque dos Clones



Palpatine, Senador de Naboo eleito Chanceler Supremo no final do Episódio I, continua no cargo apesar de seu mandato já ter vencido. Uma série de crises leva o Senado a continuamente estender seu comando. Amidala é agora Senadora de Naboo e líder de um movimento contra a formação de um exército para a República que continua se desfazendo. A cada dia, mais sistemas deixam o Senado para se unir ao movimento separatista liderado pelo Conde Dookan. Investigando uma tentativa de assassinato contra Amidala, Obi-Wan descobre um exército de clones sendo produzido a mando de um Jedi morto dez anos antes. Enquanto isso, Anakin é designado como guarda-costas de Amidala, uma posição perigosa, pois ele está apaixonado pela jovem senadora e isso é proibido aos Jedi. Em meio a mais uma crise, Palpatine consegue poderes especiais que jura devolver quando tudo se resolver.

Episódio III
A Vingança dos Sith



O terceiro capítulo da nova trilogia de Star Wars começa quase no final das Guerras Clônicas. Depois de três anos de violento conflito, o Conselho Jedi envia Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor) para capturar o General Grievous, o mortífero líder dos exércitos separatistas e levá-lo à justiça. Enquanto isso, em Coruscant, o Chanceler Palpatine (Ian McDiarmid) ganhou ainda mais poder. Suas mudanças políticas transformaram a enfraquecida República no poderoso Império Galáctico e ele revela ao seu aliado mais próximo, Anakin, a natureza de seu poder e os segredos do Lado Negro da Força.

Episódio IV
Uma Nova Esperança



Palpatine é o Imperador e dá o último passo para o fim do antigo regime, dissolvendo o senado. Atacada por naves do Império, Leia envia o dróide R2-D2 para pedir ajuda a Obi-Wan. O robô cai nas mãos de Luke Skywalker, que descobre que seu pai era um cavaleiro Jedi. Com a morte de seus tios, ele parte com Obi-Wan para libertar Leia e entregar os planos da Estrela da Morte aos líderes da rebelião. Com a análise dos planos, Luke e as forças rebeldes, ajudados por Han Solo e Chewbacca, destroem a Estrela da Morte.

Episódio V
O Império Contra-Ataca



As forças rebeldes são expulsas de Hoth por Darth Vader. Luke vai a Dagobah, onde conhece Yoda e inicia seu treinamento para ser Jedi. Durante o treino, vê Han e Leia como prisioneiros e vai ao encontro deles. Em Bespin, Han Solo é congelado em carbonita e entregue a Boba Fett, que pretende receber o prêmio oferecido por Jabba the Hutt pela cabeça de Han. Vader tenta atrair Luke para o lado negro e faz uma revelação estarrecedora: ele é Anakin Skywalker, seu pai.

Episódio VI
O Retorno de Jedi


Com a ajuda de Lando Calrissian, Luke liberta Han Solo e parte para Dagobah, como havia prometido para Yoda. Lá, testemunha a morte do velho mestre. Agora ele é o único Jedi vivo. Yoda, e Obi-Wan confirmam que Darth Vader é Anakin, e que Leia é irmã de Luke. Ao reencontrá-la, antes do ataque à nova Estrela da Morte, lhe diz o que descobriu. Enquanto os rebeldes atacam a nova Estrela, o jovem jedi enfrenta Vader e o Imperador, convencendo o pai a ajuda-lo na destruição de Palpatine. Antes de morrer, Anakin e Luke fazem as pazes. A nova Estrela da Morte é destruída e, com a morte do imperador, o Império chega ao fim.

Por Ederli Fortunato - Omelete



George Lucas reflete sobre a jornada e olha a vida além de 'Star Wars'


No Rancho Skywalker, George Lucas parece quase alegre.

Esta não é a forma como o celebrado diretor geralmente é visto por muitos na imprensa -próximo de impenetrável, como se estivesse vestindo a máscara de Darth Vader. Mas hoje, vestindo seu suéter familiar e camisa branca tradicional, ele disse estar aliviado por ter "cruzado a linha de chegada" com "Star Wars: Episódio III -A Vingança dos Sith", o capítulo final da trilogia "prequel' (que se passa antes), que estréia na quinta-feira.

"Quando você faz algo por 10 anos", disse o diretor, que fez 61 anos no sábado, "você espera ainda estar vivo para terminá-lo e que o mundo não acabe".

Para Lucas (e sem dúvida milhões de fãs), esta é uma conclusão após uma odisséia de mais de 30 anos e um história envolvendo seis filmes.

"Star Wars" (Guerra nas Estrelas) foi algo que ele iniciou em 1971, quando começou a escrever idéias para um filme ao estilo "Buck Rogers" -e o universo continuou expandindo. Quando o primeiro filme (agora chamado de "Uma Nova Esperança") foi lançado em 1977, nem Lucas e nem o estúdio esperavam que seria um sucesso. Mas os primeiros cinco filmes fizeram quase US$ 3,5 bilhões em bilheteria e US$ 9 bilhões em merchandising, e Lucas -olhando para trás- foi esperto o suficiente em manter os direitos desde o início.

Mas o cineasta nunca esperou que "Star Wars" fosse consumir sua vida, e após os três primeiros filmes terem sido concluídos em 1983, com "O Retorno de Jedi", ele deu as costas para a saga. Em vez disso, ele se concentrou em criar seus três filhos adotados e se voltou para outros projetos, como os filmes da série "Indiana Jones".

Ainda assim algo continuava a cutucá-lo. Assim, quando ele achou que seus "filhos já estavam crescidos o bastante" e que ele "dispunha da tecnologia para fazê-la", Lucas decidiu voltar para o início da história -a ascensão e queda de Darth Vader (pense em uma tragédia grega). Ele também tinha 50 anos na época e sabia que "iniciar o projeto quando tivesse 75 anos estava fora de cogitação".

Agora que "o quebra-cabeça está completo", Lucas está satisfeito. "Com sorte as pessoas a verão como uma saga em seis partes e não como um punhado de filmes individuais."

O diretor nem sempre foi tão sereno sobre comandar o império "Star Wars". Nos anos 80, segundo "Easy Riders, Raging Bulls" de Peter Biskind, Lucas sentia que "Star Wars" tinha desviado sua carreira como "O Poderoso Chefão" fez com seu mentor, Francis Ford Coppola, e até mesmo tinha prometido nunca mais voltar à franquia. Lucas até mesmo foi acusado de arruinar o cinema americano, uma acusação que ele rejeita.

Na escola de cinema da Universidade do Sul da Califórnia, nos anos 60, Lucas esperava se tornar um cineasta independente, criando filmes de arte, e seu primeiro trabalho, "THX 1138" de 1971, demonstrava isso. Muitos consideraram o filme interessante mas frio. Encorajado por Coppola a fazer algo mais caloroso, Lucas fez "Loucuras de Verão" (American Graffiti), que por sua vez lhe deu a chance de fazer "Star Wars".

Seu sucesso sem precedente o transformou em um objeto de constante exame pela mídia e pelos fãs. Enquanto trabalhava em "O Retorno de Jedi", ele começou a construir o Rancho Skywalker em uma área isolada de Marin County, um local que o protegeu dos holofotes de Hollywood.

Mas em algum ponto ao longo do caminho -em algum momento enquanto criava seus filhos- Lucas se reconciliou com a franquia, talvez porque sempre tenha amado os personagens.

Matt Stover, que escreveu a novelização de "Sith", disse que quando conversou com o cineasta sobre o projeto, era "quase como se estivesse conversando com outro fã, porque não havia fingimento, artifício. O entusiasmo dele com tudo isto era muito palpável".

Mas mesmo após voltar para fazer a trilogia prequel, que começou com "Episódio I -A Ameaça Fantasma" em 1999, Lucas nem sempre esteve em terreno firme. Em parte porque, como ele reconhece, "diálogo não é a minha área. Eu sou bom com a trama". Mas ele sentiu que ninguém mais poderia contar a história a não ser ele.

Ainda assim, ele concluiu o primeiro rascunho do roteiro de "Episódio II -Ataque dos Clones" apenas uma semana antes do início das filmagens, e então contratou um roteirista para ajustá-lo porque "decidi que era melhor voltar a ser diretor, e precisava de alguém com quem gritar".

Mas em "Sith", Hayden Christensen, que interpreta Anakin Skywalker, viu um Lucas diferente do homem que dirigiu "Clones".

"Ele claramente estava mais empolgado com a história que estava contando. Você podia dizer pela forma como ele chegava ao set todo dia, com uma paixão para fazer a cena direito. Eu acho que talvez havia uma tranqüilidade ou confiança que ele não tinha no último filme, porque ele estava confiante na história, como todos nós estávamos."

Ao dar início aos prequels, Lucas sabia que as coisas seriam diferentes nestes filmes "Star Wars". "Eu aceitei o fato de que eu não era mais uma criança." E apesar de que "queria estilisticamente a mesma coisa" -uma seriado de matinê de sábado e um estilo de ação de um filme dos anos 40- ele sabia que os filmes seriam mais sombrios.

"Não era um arco de história tradicional. Não era uma trama. Era um estudo de personagem. Esta parte é diferente. Eu sabia que isto seria uma visão mais madura da mesma idéia."

Apesar da "Ameaça Fantasma" (US$ 925,5 milhões) e "Clones" (US$ 648,3 milhões) terem atraído os fãs, ambos deixaram uma sensação de algo inacabado. O desfecho viria em "Sith".

Lucas disse que queria terminar a saga porque sentiu que muitas pessoas não entenderam que os filmes "Star Wars" eram na verdade a história de Anakin Skywalker/Darth Vader.

Rick McCallum, o produtor de "Sith", acredita que o filme - feito por US$ 113 milhões - "agradará ao público", incluindo os mais jovens que vibraram com Anakin em "I" e "II" e que querem ver como ele se tornará o maligno Vader.

Um tom mais sombrio levou a uma classificação PG-13 para "Sith" (o que significa que menores de 13 anos só podem entrar acompanhados de pai ou responsável), o primeiro filme da série a não receber uma classificação PG (que apenas sugere o acompanhamento de pai ou responsável, pois pode haver conteúdo inadequado para crianças). Lucas disse que não pôde evitar por causa da história que queria contar.

Ele disse que "Star Wars" sobreviveu porque é "baseada em motivos mitológicos que estão presentes há milhares de anos". Isto reflete o interesse de Lucas no trabalho clássico de Joseph Campbell sobre os mitos, "O Herói de Mil Faces". Lucas disse ter relido o livro após o início de "Star Wars" e considerava o falecido Campbell, cuja obra ele ajudou a popularizar, algo como um mentor.

Atualmente, o diretor defende o trabalho de Daniel Goleman, cujo livro de 1995, "Inteligência Emocional", ajudou a dar forma à missão da Fundação Educacional George Lucas. Em uma declaração no site da fundação (edutopia.org), o cineasta diz que a organização foi criada porque "o ensino público é a base de nossa democracia" e porque se perguntava "por que a escola não pode ser empolgante o tempo todo". Para isto, a fundação produz filmes, livros, uma revista, um boletim eletrônico, CD-ROMs e DVDs para escolas. A inteligência emocional, segundo Coleman, é a idéia de que habilidades como autocontrole, convivência, perseverança e automotivação são mais importantes do que o QI para o sucesso ao longo da vida. Lucas colocou desta forma: "No meu trabalho de direção, nós precisamos de indivíduos talentosos com perícia técnica, mas as habilidades deles de comunicação e trabalho em grupo são igualmente valiosas".

Falando com ele sobre a história de "Star Wars" você verá por que Lucas está interessado no trabalho de Goleman.

"Emocionalmente, nós não mudamos muito nos últimos 3 mil anos. Eu acho que sentimentos enraizados sobre muitas coisas e a necessidade de saber como as coisas funcionam em termos de uma família, em termos de nosso lugar na sociedade (...) são exatamente os mesmos. Este é o motivo por que as pessoas se relacionam com isto. Eu venho dizendo isto desde o início, quando as pessoas diziam (que 'Star Wars') se tratava de espaçonaves (...). Você podia fazer o filme com bigas e contar a mesma história."

Apesar da Lucasfilm continuar produzindo "Guerras Clônicas", uma série em desenho animado derivado da franquia, e planejar eventualmente produzir uma série filmada que transcorrerá entre os episódios "III" e "IV", Lucas disse que está "aguardando ansiosamente para fazer outras coisas na minha vida".

Isto inclui aqueles filmes de arte não lineares que pretendia fazer após a faculdade. Quando pressionado sobre como seriam, ele mencionou apenas "Powaqqatsi: Uma Vida em Transformação" um documentário visualmente estonteante de Godfrey Reggio, que Lucas produziu em 1988. Mas fora isto, o cineasta apenas sorriu e disse: "Eu não sei. Eu não tenho nada ainda".

"Eu nunca teria acreditado que estaria onde estou agora -nem em um milhão de anos, e abordei isto de forma completamente errada", disse Lucas, que será homenageado no Festival de Cannes, onde "Sith" fará sua estréia mundial e ele receberá um troféu pelo conjunto de sua obra.

"Eu estava seguindo na direção oposta. De alguma forma acabei aqui. É assim que é a vida. Você segue para o norte e acaba no sul."

Em algum ponto ao longo do caminho, Lucas - seja o cineasta de arte ou o mago da cultura pop - parece ter abraçado seu destino, independente da direção em que estava seguindo.

Por Rob Lowman - Los Angeles Daily News



"Star Wars" gera expectativa sobre novo recorde


Filme pode bater marcas de "Homem-Aranha" e "O Retorno do Rei"


"Star Wars: Episódio 3 - A Vingança do Sith" estréia nos EUA após meia noite desta quarta-feira (18/05) e em todo o mundo no curso de alguns dias. Com a aproximação da data, os executivos da 20th Century Fox estão recebendo relatórios de vendas recordes.

O AMC Empire, com 25 salas na rua 42 em Manhattan, já esgotou os ingressos para as sessões de 0h01, 0h30, 0h50, 1h10 e 1h45.

Em Nova York, Chicago, Los Angeles, Boston, Washington, Seattle e San Francisco, os cinemas estão acrescentando sessões no meio da noite, diante da velocidade da venda de ingressos.

Bruce Snyder, diretor de distribuição do estúdio, estava fora de si enquanto enumerava uma lista de cadeias nacionais de cinemas e suas percentagens de ingressos vendidos em todo o país para as sessões de meia noite: "Até o domingo, os cinemas da AMC já tinham vendido 74%; Century, 85%; Regal, 83%; Loews, 77%".

E assim continuou, antes de acrescentar: "Estou nesse ramo há muito tempo. Não me lembro de ter visto nada igual, quatro dias antes de uma sessão coruja na quarta-feira à noite. Não estamos exatamente no verão."

Mas o verão, aparentemente, chegou algumas semanas mais cedo, e não foi cedo demais.

A indústria do cinema sofreu na primavera com a falta de grandes sucessos. Apenas "Hitch", uma comédia romântica que estreou poucos dias antes do Dia dos Namorados (que, nos EUA, é em fevereiro), ultrapassou a marca de US$ 40 milhões (cerca de R$ 100 milhões) em seu final de semana de estréia.

No total, neste ano, as bilheterias estão 8% menores do que o mesmo período em 2004, e as arrecadações de finais de semana têm sido menores do que as do ano passado há 12 semanas seguidas. Mesmo se excluirmos o ano passado, que teve a "Paixão de Cristo" no final de fevereiro, o público deste ano está 7% menor do que em 2003, de acordo com o Exhibitor Relations, que acompanha os resultados de bilheteria.

A LucasFilm deve colher a maior parte dos louros do sucesso da "A Vingança do Sith", e a Fox receberá uma taxa relativamente baixa por sua distribuição. Mesmo assim, os competidores estão torcendo pelo filme nesta semana.

"O setor de cinema é contagioso", disse Tom Sherak, sócio da Revolution Studios. "Ou seja, se você vai ver um filme e gosta, é provável que continue indo ao cinema. Isso movimenta a indústria. Quando caímos em um marasmo, é porque os filmes sendo apresentados não têm boa recepção do público. E, no último mês, não tivemos muitos filmes com boa recepção e propaganda boca a boca."

O "Episódio 3", o sexto de um ciclo de filmes de "Star Wars" de 28 anos, parece ter grandes chances de tirar o título do "Homem Aranha" da Sony Pictures como o filme de maior noite de estréia da história.

O "Homem Aranha" arrecadou US$ 114,8 milhões (em torno de R$ 290 milhões) em três dias, quando estreou em maio de 2002. Depois de um recorde de final de semana, arrecadou US$ 403,7 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão) nas bilheterias, menos do que o primeiro lugar "Titanic", que arrecadou US$ 601 milhões (em torno de R$ 1,5 bilhão), em 1997.

Os dados não parecem levar em conta a inflação ou as imprecisões dos dados na época de filmes como "E o Vento Levou" ou "A Noviça Rebelde".

Na terça-feira, Snyder, da Fox, estava sentindo o peso da história e das expectativas. "Estão depositando todos os males da indústria sobre esse filme", lamentou.

"Acho que é uma carga muito grande para se colocar nos ombros de um filme", disse ele. "Mas se há um filme que pode lidar com isso, é 'Star Wars'."

De fato, as duas maiores empresas que vendem ingressos na Internet, Fandango e Movietickets.com, disseram que estavam prestes a quebrar seus recordes de vendas adiantadas, estabelecido pelo "Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei", em 2003.

O filme arrecadou US$ 72,6 milhões (cerca de R$ 181 milhões) em seu final de semana de estréia e ultrapassou US$ 337 milhões (aproximadamente R$ 842 milhões) nas bilheterias.

"Estamos vendendo dois ingressos por segundo, e acreditamos que esse ritmo vai se quadruplicar até o final da semana", disse Harry Medved, porta-voz do Fandango que diz cobrir 70% dos cinemas do país que oferecem vendas na Internet.

"Estimamos que venderemos 3 milhões de ingressos para o 'Sith'", comparados com 2 milhões para o "Senhor dos Anéis", disse ele.

No Movietickets.com, enquanto isso, um porta-voz disse que o novo "Star Wars" foi responsável por 98% de todos os ingressos vendidos na segunda-feira.

"A Vingança do Sith", nesse ritmo, vai vender mais de 5 milhões de ingressos online, o que já dá uma arrecadação de quase US$ 50 milhões (aproximadamente R$ 125 milhões).

O grande final de "Star Wars" terá o campo livre neste final de semana. As próximas estréias serão "Madagascar", um filme de animação da DreamWorks e "The Longest Yard", da Paramount, no dia 27.

Os estúdios rivais estimam que o "Sith" poderá ter um final de semana de quatro dias, arrecadando US$ 120 milhões até US$ 150 milhões ou mais (entre R$ 300 milhões e R$ 375 milhões).

Outros, porém, disseram que estrear um dia antes pode diminuir as vendas de final de semana, possivelmente deixando intacto o recorde do "Homem Aranha".

"Todo mundo acha que, se não estreassem na quinta-feira, teriam ultrapassado o 'Homem Aranha'. Isso pode ter esvaziado seus pneus um pouco", disse um executivo da Sony, que insistiu no anonimato pois sua empresa proíbe comentários sobre filmes dos competidores.

Também podem estar atrapalhando o capítulo final de "Star Wars" sua longa duração, de 142 minutos, e uma certa reação política. Isso aconteceu principalmente nos sites da Web conservadores, que estavam reagindo às pontadas políticas do filme no presidente Bush e à guerra no Iraque, como quando Anakin Skywalker, depois de se voltar para o lado negro, adverte que, "se você não está comigo, você é meu inimigo".

Mas os executivos da LucasFilm e Fox disseram que não estavam preocupados.

"Ninguém liga", disse Snyder. "É republicano? É democrata? Ninguém se importa. É diversão."

Por David M. Halbinger - New York Times



Vestido para MATAR


Hayden Christensen comenta a transformaçã o de adolescente rebelde em Darth Vader e o final da saga "Guerra nas Estrelas", que estréia hoje


Darth Vader combina com ele.

O canadense Hayden Christensen começou sua queda para o lado escuro em "Star Wars: O Ataque dos Clones" (02) e completa o percurso em "Star Wars: A Vingança dos Sith", com a metamorfose de Anakin Skywalker no símbolo do mal, Darth Vader, de roupas negras e respiração ofegante.

Vestir o figurino de Vader, com a máscara incluída, pela primeira vez, foi... "Orgástico", diz Christensen. "Foi tudo o que se poderia imaginar. Foi a realização de um sonho de menino. Avassalador."

"É difícil colocar em palavras o que senti, porque foi uma sensação muito nova para mim", prossegue o jovem ator. "Foi um sentimento que misturava excitação e poder. Sentir-se inteiramente encerrado dentro de Darth Vader é algo que confere enorme liberdade a você. Colocar-se atrás de uma máscara já confere grande liberdade, mas atuar por trás de um personagem inteiramente encapsulado foi realmente legal."

Christensen enfrenta um desafio nada desprezível no "Episódio 3 - A Vingança dos Sith", que toma os cinemas brasileiros -e do mundo- de assalto a partir da madrugada de hoje.

Ele transformará Anakin de adolescente rebelde, cuja mãe morreu em seus braços, em Darth Vader, o sombrio senhor dos Sith e implementador impiedoso do esquema arquitetado pelo imperador Palpatine (Ian McDiarmid) para destruir todos os jedis, incluindo seu mentor, Obi-Wan Kenobi (Ewan McGregor).

Em entrevista por telefone de um hotel em Sydney, na Austrália, Christensen afirma que quem o ajudou a dar conta do recado foi o roteirista e diretor da saga, George Lucas.

"Meu trabalho se tornou bem mais fácil pelo fato de o roteiro ter sido mapeado de maneira inteligente, especificamente no que diz respeito à descida de Anakin para o lado escuro", diz o ator. "Você aparece para trabalhar, e George já tem uma idéia muito concreta sobre como tudo vai parecer e como tudo vai se manifestar."

Ele diz que o que tinha de fazer era aparecer para trabalhar e ajudar George Lucas a tentar transformar essa visão em realidade. "Não foi tão difícil quanto se possa imaginar. Mas eu era uma pessoa disposta a explorar as opções e que não estava comprometida com um tipo de ideal moral", prossegue o ator. "Esse mal do qual falamos, na medida em que é uma progressão gradual, consiste em Anakin fechar um pacto com o demônio, como George gosta de dizer. A partir do momento em que meu personagem e Palpatine chegam a um entendimento, a coisa realmente deslancha."

Em "A Vingança dos Sith", Obi-Wan Kenobi, durante um longo duelo com espadas de luz, fere Anakin a tal ponto que ele precisa de implantes de ciborgue e do equipamento de Darth Vader para poder sobreviver. Mas os críticos de cinema e fãs da série "Star Wars" atacaram Christensen e Lucas com fúria semelhante na esteira de "Ataque dos Clones", não tendo gostado da performance do ator nem do roteiro e da direção do cineasta.

"Para ser franco, eu mais ou menos já sabia qual seria a reação quando li o roteiro pela primeira vez, porque Anakin era um adolescente irritante", diz Christensen, que completou 24 anos em 19 de abril. "Era assim que o roteiro o apresentava, e era assim que George queria que eu o representasse, porque era assim que o personagem precisava ser. Então eu não tinha problemas com isso, mas sabia que seria criticado."

"Só espero que, quando as pessoas assistirem ao filme, tenham um pouco mais de condescendência com características que elas tiveram dificuldade em aceitar em alguns dos personagens dos últimos dois filmes", diz Christensen. "Em todo caso, para mim, nunca se tratou de um concurso de popularidade. Eu quis concretizar plenamente o personagem que George criou e acho que consegui fazê-lo."

"Este filme realmente volta aos fundamentos. Ele foi reduzido a temas muito simples, mas épicos. É a história de Anakin se transformando em Darth Vader -muito simples, sabe como? É a história de uma república que vira um império. O resultado é que você passa a apreciar melhor os dois filmes anteriores", explica o ator.

"Toda essa ambientação era necessária para que essa transição política realmente fizesse sentido, e ela é uma parte importante do episódio 3", conta Christensen. "O filme faz um bom trabalho de amarração de tudo o que gostamos na trilogia original. Ele tem uma conexão muito linear com os filmes anteriores e faz a saga inteira ser sentida como um todo."

O lançamento de "A Vingança dos Sith" marca o final tanto dessa parte da saga "Star Wars" quanto do envolvimento de Hayden Christensen com ela. No momento, ele filma "The Decameron" (o decamerão), um drama/ aventura/romance de época co-estrelado por Mischa Barton, do seriado "The O.C.", e prepara vários outros projetos através de sua própria produtora.

É um prato cheio de trabalho para um jovem ator que atuava num seriado de televisão canadense bem pouco visto quando foi tirado da relativa obscuridade para representar o personagem de Anakin Skywalker em "Ataque dos Clones" (2002).

Mas Christensen sabe que deve sua boa sorte a "Star Wars". "O fato de tudo isso estar acabando traz um sentimento agridoce. "Star Wars" foi uma parte enorme dos últimos quatro anos de minha vida. Os filmes transformaram minha vida drasticamente nos últimos quatro anos, e é difícil me acostumar com duas idéias: primeiro, que eu fiz parte deles, e segundo, que eles estão chegando ao fim. "É tudo um pouco estranho. Mas foi a grande experiência de minha vida", conclui o ator.

Por Ian Spelling - "New York Times"



Império e Conselho Jedi unidos? É a Força


Fanáticos por Star Wars, membros de fã-clubes se preparam para lotar os cinemas e conferir hoje, a caráter, o fim da saga criada por George Lucas


Hoje, quando o último episódio da saga Star Wars estrear mundialmente à meia-noite, um dos maiores fãs-clubes do mundo dedicado à criação de George Lucas se sentirá prestigiado. O diretor, que se tornou um mito do cinema, escalou a divisão 501 de soldados do Império para invadir com Anakin Skywalker, o Darth Vader, a sede do Conselho Jedi. 501 é também o nome do fã-clube que tem mais de 30 mil membros só nos Estados Unidos e sócios em 48 países.

"No Brasil, existe desde 2000, quando eu me tornei sócio da divisão norte-americana e fui convidado para montar uma base aqui. Foi então que nasceu a 501st Legion - Divisão Brasil, que hoje conta com cerca de 1500 sócios", explica o jornalista Vinicius Ayres, 'comandante' da divisão brasileira do fã-clube. Mas, ele avisa: "Só entram para o 501st membros com fantasias do Império Galáctico, ou seja, do lado mau da Força. Fantasias Jedi, ou do bem, estão fora."

Os fãs prometem retribuir a homenagem de Lucas à altura. Os integrantes da divisão brasileira do 501st já garantiram seus ingressos para a sessão de hoje e vão lotar, a caráter, duas salas do Cinemark Santa Cruz. Não se assuste se você estiver pelo shopping e se deparar com Storm Troopers, Sand Troopers, Oficiais Imperiais, e claro, com Darth Vader. O grande Mestre Sith estará devidamente representado pelo designer Marino Penteado, que levou anos para literalmente construir sua fantasia. "É a mais completa do País. Eu mesmo construí circuitos de lâmpadas, que acendem por toda roupa. Botei minha mãe e minha sogra para costurarem e comprei o capacete e o sabre num leilão virtual. Só estes dois últimos valem cerca de R$ 3 mil", declara o Darth Vader tupiniquim que, 'montado', tem 2 metros de altura.

Os fãs do bem também fazem sua parte e prometem lotar as salas da cidade. "O Conselho Jedi vai todo paramentado à sessão de hoje. Há sócios que passaram o domingo trabalhando numa oficina para aprontar as fantasias", conta Fábio Barreto, jornalista e fundador do Conselho Jedi Brasil, que está em Nova York, onde passa a lua-de-mel. Fábio se casou no último sábado. A paixão por Luíza, que ele conheceu em uma Convenção Jedi, e por Star Wars é tão grande que seu bolo de casamento, em vez dos tradicionais noivinhos estavam Han Solo e a Princesa Léa. "Entrei na igreja ao som da Marcha Imperial, tema de Darth Vader, e escolhi ir para Nova York só para poder ver a pré-estréia lá. A cidade pára. Você faz amigos na fila. Um Luke Skywalker conversa numa boa com um Darth Vader", conta.

Por Flávia Guerra & Adriana Del Ré - Estado de São Paulo


9.5.05

SPOILER ESPECIAL: Cannes 2005

"Cidade Baixa" aborda possibilidade do triângulo amoroso, diz diretor


Foi aos 49 minutos do segundo tempo, como ele mesmo diz, que o cineasta baiano Sérgio Machado enviou seu filme, "Cidade Baixa", para as comissões de seleção do 58º Festival de Cannes.

O filme, que tem Wagner Moura e Lázaro Ramos no elenco, conta a história de uma jovem que pega carona com dois malandros num barco para chegar até Salvador e lá ganhar a vida como dançarina.

A correria não atrapalhou a visibilidade da obra: os selecionadores gostaram tanto que o filme foi convidado para integrar duas mostras paralelas do festival, Um Certo Olhar e Quinzena dos Realizadores. Machado optou pela primeira, a mesma que há três anos abrigou "Madame Satã", de Karim Ainouz.

Autor de um documentário longa-metragem, "Onde a Terra Acaba" (2001), sobre o cineasta dos anos 30 Mario Peixoto, Machado trabalha há dez anos com Walter Salles. Foi assistente de direção de "Central do Brasil", "O Primeiro Dia" e "Abril Despedaçado" - deste último assinou também o roteiro.

Nesta semana, Machado está ocupado em terminar a tempo um documentário curta-metragem de dez minutos que será exibido no "Fantástico" deste domingo, em comemoração dos 40 anos da Globo. Leia a seguir a entrevista dada pelo cineasta por telefone:

Spoiler: De onde surgiu a idéia de "Cidade Baixa"?
Sérgio Machado: Comecei a pensar na história quando voltei da apresentação de "Abril Despedaçado" em Veneza, em 2001. Estava fascinado com a idéia de trabalhar com um triângulo amoroso longinquamente inspirado em "Tristão e Isolda". Minha primeira intenção era fazer um filme passado na década de 60 e inspirado nas fotografias de Pierre Verger. Mas em algumas leituras do roteiro com o Walter Salles e o Eduardo Coutinho, nas quais eles criticaram um certo romantismo excessivo da história, decidi mudá-la para os dias de hoje.

Spoiler: Foi necessário fazer muita pesquisa para o roteiro?
Machado: Freqüentei muito a Cidade Baixa de Salvador, as ruas, as casas de strip-tease. Conhecia as pessoas e pedia para encontrá-las no dia seguinte, para conversarmos melhor. O filme não traça um retrato sociológico da vida das prostitutas, mas traz muito do clima em que elas vivem.

Spoiler: Na sua opinião, qual o diferencial do filme que pode ter atraído a atenção dos selecionadores de Cannes?
Machado: Em geral, os filmes que abordam um triângulo amoroso falam da impossibilidade desse triângulo. O meu, ao contrário, fala justamente da possibilidade de três pessoas manterem um relacionamento.

Spoiler: Quando o filme vai ser lançado?
Machado: Tudo vai depender da repercussão em Cannes e da agenda dos atores, mas nossa expectativa é lançá-lo em agosto. Vários contratos internacionais também já estão sendo fechados.

Por Thiago Stivaletti


6.5.05

Guerra e Paz


"Cruzada" faz apologia velada da era Bush


"Deus quer assim!"

As palavras saíram da boca de Urbano 2º em 1095, quando o papa convocou a Europa cristã a reconquistar a Terra Santa dos "infiéis", iniciando as Cruzadas. Mas poderiam ter sido ditas por George Bush 2º, que se declarou "cristão renascido" em 1999, já disse a membros de seu gabinete frases como "Não o vi na leitura matinal da Bíblia de ontem" e tem seu segundo mandato marcado pela ascensão da direita cristã, que aos poucos dita o debate intelectual e cultural do país. (Após o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001, o próprio presidente dos EUA chamara inicialmente de "cruzada" o que depois rebatizaria de "guerra ao terror".)

Este é o contexto não-assumido de "Cruzada", superprodução hollywoodiana de US$ 130 milhões (R$ 326,89 milhões) e 15º longa do britânico Ridley Scott que estréia no Brasil e mundialmente. O filme se passa durante a trégua celebrada pelo cristão Balian de Ibelin e o sultão Saladino entre a segunda e a terceira cruzadas, em 1187, na fase turbulenta que sucedeu a morte de Balduíno 4º, então rei de Jerusalém. "Com exceção de alguns detalhes, "Cruzada" até que é fiel do ponto de vista histórico", disse Nancy Caciola, especialista em história européia medieval da Universidade de Michigan.

Mas o perigo mora nos detalhes. Não é obra do acaso a escolha dos atores que interpretam os puros Balian e seu pai, franceses originalmente e aqui vividos pelos britânicos Orlando Bloom e Liam Neeson, respectivamente. Assim como não é aleatório o episódio específico escolhido por Scott dentro de um período que se estica de 1095 a 1291 e é rico em momentos históricos. Nem o modo talvez maniqueísta de retratá-lo no filme. Quem põe tudo (no caso, a frágil paz que poderia moldar as relações entre Oriente e Ocidente no porvir) a perder, por exemplo, são os radicais que assessoram Saladino e os corruptos afrancesados que cercam a corte de Balduíno, uns como outros vilões caricaturais.

Esqueça o diretor que revolucionaria o cinema de ficção científica com "Alien" (1979) e "Blade Runner" (1980). Com "Cruzada", Ridley Scott completa sua, digamos, "Trilogia do Império", que começou com "Gladiador", em 2000, e teve "Falcão Negro em Perigo", de 2001, no meio. São três filmes em que o britânico louva de maneira incondicional o império norte-americano, primeiro como sucessor e sucedâneo do romano, depois como libertador de selvagens mal-agradecidos, agora como condutor da nova "guerra santa" que se impõe.

Ele próprio discorda, como afirmou em entrevista à Folha. Diz que quando se interessou pelo projeto de "Cruzada", estava apenas em busca da semelhança entre o cavaleiro e o caubói, ambos heróis solitários que fazem justiça com as próprias mãos e respondem apenas a uma ética própria, porém guiada por valores maiores e universais. E nega qualquer propósito político ou influência do zeitgeist do país em que vive.

O diretor é da mesma geração de publicitários britânicos que fariam a fama em Hollywood a partir da década de 80, gente como seus amigos Adrian Lyne (de "Atração Fatal", entre outros) e Alan Parker ("O Expresso da Meia-Noite") e seu irmão Tony ("Top Gun - Ases Indomáveis").

Desde a virada do século, porém, talvez como gratidão pelo sucesso financeiro alcançado aqui (seus 13 filmes norte-americanos renderam quase US$ 800 milhões, cerca de R$ 2 bilhões), Scott virou uma espécie de braço audiovisual da coalizão anglo-americana formada principalmente a partir do 11 de Setembro, mas consolidada com a invasão do Iraque, uma versão fílmica da aliança Bush-Blair.

Saladino barrado


Um dos destaques de "Cruzada" é Saladino, tanto o personagem histórico quanto sua representação na tela. De acordo com o historiador Hamid Dabashi, titular de estudos iranianos da Universidade Columbia, "o sultão sempre foi considerado figura menor no universo do islã e só se tornou o personagem mítico captado pelo filme por influência de obras ocidentais elogiosas dos séculos 18 e 19" -que seriam depois consumidas e amplamente divulgadas pelo mundo árabe ao longo do século passado, influenciando até Saddam Hussein, que se dizia sucessor do herói.

Saladino é interpretado com graça e talento pelo ator e dramaturgo Ghassan Massoud. Ele não constava entre os que falavam à imprensa durante o lançamento do filme em Los Angeles, há algumas semanas. "Houve um pequeno incidente, mas estamos tentando resolvê-lo", disse então Ridley Scott. A Folha apurou o "pequeno incidente": sírio, Massoud teve seu visto de entrada negado pelos Estados Unidos, por ter nascido num dos países apontados pelo Departamento de Estado norte-americano como abrigo de terroristas.

Esse "pequeno incidente" talvez resuma "Cruzada" e a "guerra santa" de que o filme trata, a de então e a de hoje.

Por Sérgio Dávila



A sonhadora de "Maio de 68" leva sensualidade a "Cruzada"


Eva Green, a Sybilla do filme que estréia sexta, fala do seu trabalho com dois grandes diretores


Foi uma batalha quase tão grande quanto a que é travada por Jerusalém, no épico de Ridley Scott que estréia em quase 400 salas de todo o País. A cúpula da empresa Fox não queria Eva Green no principal papel feminino de Cruzada. Achava que a atriz não tinha nome para servir como chamariz numa produção de US$ 140 milhões, nem experiência dramática para segurar um papel difícil como o de Sybilla. Ridley Scott bateu pé e recusou-se a testar as atrizes que a Fox lhe sugeria. Era Eva ou ninguém. Ele venceu. Eva lhe é grata. Não só a ele. "Tive o privilégio de trabalhar com dois grandes diretores que confiaram em mim." O outro foi o Bernardo Bertolucci de Os Sonhadores, que também foi distribuído pela Fox.

Eva Green virou objeto de desejo das platéias masculinas ao aparecer em nu frontal no filme de Bertolucci sobre Maio de 68. Ela representa agora vestida na maior parte do tempo. Tem uma breve cena de amor com o personagem de Orlando Bloom, o cruzado Bailian, que o diretor corta sem dar tempo ao espectador de se fixar no escultural corpo da atriz, que, teoricamente pelo menos, também está nua. A nudez é um problema para Eva? "Eu não seria uma atriz se tivesse problemas com meu corpo", ela revela numa entrevista por telefone, de Madri. Eva estava na capital espanhola participando da campanha de lançamento de Cruzada. Em todo o mundo, incluindo os EUA, a estréia será no dia 6. De Madri, ela voou para Paris. Estava atrasada para ir ao aeroporto. A assessoria a pressionava para desligar a ligação. Ela queria falar mais sobre Sybilla e Ridley Scott, sobre sua personagem em Os Sonhadores e Bernardo Bertolucci.

"Eles são bem diferentes um do outro, mas têm em comum o fato de serem visionários", explica. E o fato de terem confiado nela não significa que não tenham exigido muito de Eva no set. "De certa maneira, embora o filme fosse menor, como escala de produção, quase todo dentro daquele apartamento, Bernardo sabia exatamente o que queria de mim e me pressionava até atingi-lo. Curiosamente, senti-me muito mais livre trabalhando com um perfeccionista como Ridley, numa produção dez vezes mais cara." Sair de um apartamento para um set aberto, com tomadas de helicópteros, explosões e 30 mil figurantes - multiplicados, depois, no computador - pode ser intimidante para qualquer atriz, mesmo veterana. "Ridley possui a fama de que controla tudo e ele tem um olho rigoroso. Planeja as tomadas e não dá chance para o acaso. Dentro dessa estrutura de ferro que ele arma, os atores, paradoxalmente, ficam livres para criar. Nunca me senti dirigida por Ridley, mas tenho certeza de que fiz exatamente como ele queria, caso contrário não teria me aprovado."

O épico desenrolado no século 12 trata do cerco a Jerusalém pelas forças do rei muçulmano Saladino. Na Cidade Santa, reinava um jovem soberano corroído pela lepra, cujo rosto não vemos nunca, apenas seus olhos (é interpretado por Edward Norton). O rei de Jerusalém, ao morrer, deixa o trono para a irmã, Sybilla. Ela é casada com Guy de Lusignan, mas detesta o marido. Ama Bailian, que a rejeita. O resultado é o confronto entre cristãos e muçulmanos em cenas de batalha de intenso realismo. Em Las Vegas, há cerca de dois meses, o próprio Ridley Scott já havia destacado para o repórter do Estado a importância de Saladino, interpretado pelo ator sírio Ghassan Massoud. Ele disse que não fez o filme pensando especificamente numa aproximação com o mundo árabe, mas atraído pela história, que, no fundo, promove esse encontro.

"Não é difícil focalizar Saladino sob um ângulo positivo", disse o diretor. "Os próprios árabes já o encaram como o maior muçulmano após Maomé. Foi um grande estrategista, um guerreiro, um político e um intelectual. Não existem muitos homens assim, no Ocidente ou no Oriente." Eva Green vê nisso a maior importância do filme. "Depois de participar do filme de Bernardo sobre os eventos revolucionários de Maio de 68, sinto que participo de outra revolução. Foi muito corajoso da parte de Ridley criar esse personagem, num momento como o atual." Por isso mesmo, ela teme pelo desempenho de Cruzada na bilheteria. "É um grande filme e estamos todos muito orgulhosos por tê-lo feito, mas é arriscado. Bailian evolui dentro do filme, mas provavelmente será a sabedoria de Saladino que ficará com o espectador, no fim. Não sei se os americanos estão preparados para isso."

A sabedoria de Saladino - e o estranhamento que produz a figura do rei leproso, com seu rosto coberto por uma máscara na qual só os olhos transmitem a angústia da vida que se esvai. "Ridley é atraído pela beleza, mas reconhece a força da tragédia. É um personagem fascinante." E Sybilla? "Ela é ambivalente. No princípio, parece infiel, uma mulher casada que vai para a cama com o belo cavaleiro. Mas Sybilla não ama o marido, ao qual termina permanecendo fiel, o que precipita uma tragédia. É tudo muito complexo. Ninguém poderá dizer que Ridley simplifica as coisas para as grandes platéias." Apenas dois filmes e de dois grandes diretores. Eva Green possui um extenso currículo no teatro, na França. No último minuto, ela reserva uma surpresa para o repórter. "Você deve ter visto minha mãe no cinema. Sou filha de atriz." E quem é a mãe de Eva? É Marlène Jobert, que co-estrelou, com Charles Bronson, o policial cult O Passageiro da Chuva, de René Clément. Estão explicados aqueles olhos, que se destacam no exótico guarda-roupa da personagem. Eva pode estar começando, mas já tem o brilho de uma estrela.

Por Luiz Carlos Merten